Procurando Dory: o que é perda de memória recente?

No filme da Disney / Pixar, a personagem não consegue se lembrar de fatos recentes. Afinal, o que é esse distúrbio e quais são as suas causas?

Imagem: Divulgação / Disney / Pixar

Oi, eu sou a Dory. Eu sofro de perda de memória recente”, revela a divertida peixinha azul, que estrela um dos filmes mais vistos no cinema das últimas semanas. Em Procurando Dory, a personagem começa a ter flashbacks sobre seu passado e, em uma dessas lembranças súbitas, se recorda que possui uma família. Porém, como encontra-la? E o que ela realmente se lembra, já que Dory sofre de perda de memória recente?

Essas são as questões que você vai desvendar ao assistir ao longa da Pixar / Disney, atualmente nos cinemas. Mas o que seria a perda de memória recente? Nessa missão, a gente pode ajudar você.

 

Assista ao trailer de Procurando Dory!

Vários tipos

Existem algumas classificações para a memória humana. Há, por exemplo, a memória de longo prazo, que armazena acontecimentos ocorridos faz muito tempo. Também temos a de médio prazo, que guarda fatos não tão distantes assim do tempo atual. E, finalmente, a de curto prazo. “Essa última consiste na capacidade de recordar informações logo após sua apresentação. Tem sua capacidade limitada a cerca de duas a sete informações por vez, mais ou menos”, define William Ferraz, terapeuta e master coach especialista em inteligência emocional.

As memórias de curto prazo permanecem disponíveis em nossa mente por alguns minutos. Caso essas lembranças não sejam estimuladas por meio de repetições ou recordações posteriores, elas se perdem ou, então, são substituídas por uma ou várias informações novas. Ou seja, usamos a memória de curto prazo a todo instante, para desenvolver tarefas do dia a dia, das mais banais às mais importantes.

 

Imagem: Divulgação / Disney / Pixar

Dory, Nemo e Marlin fazem novos amigos no filme. – Imagem: Divulgação / Disney / Pixar

Memória recente ou de curto prazo?

Se estamos falando em memória de curto prazo, seria a mesma coisa que memória recente? “Muitas pessoas generalizam esses dois tipos de memórias e fazem parecer a mesma coisa, porém elas são diferentes”, ressalta William. “A memória recente está relacionada à memória operacional, que nos dá a possibilidade de solucionar tarefas simples do dia a dia”, explica João Oliveira, psicólogo e mestre em cognição e linguagem. A memória recente difere da memória de curto prazo (também conhecida como operacional) pois fica por pouco tempo em nossa mente. Já a de curto prazo pode permanecer durante horas, talvez dias.

E por que a memória recente é importante? Conforme exemplifica João Oliveira, essa capacidade é útil para recordarmos um número de telefone para ligar naquele instante. Ou para dar continuidade a uma rota que estamos seguindo, além de permitir organizamos nosso próprio comportamento. “Ou seja, administrar o processo da realidade cotidiana”, diz.

 

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Imagem: Giphy.com / Reprodução

“Ando esquecido por quê?”

Se a memória recente é tão importante assim, imagine conviver com uma perda constante dessas informações, como acontece com a Dory! Então, quais seriam as causas para esse distúrbio? William Ferraz elenca três principais fatores que podem influenciar: sono, humor e atenção.

Entre os distúrbios de sono, William aponta a insônia e a apneia de sono. Ao tratarmos de distúrbios de humor, o especialista elenca a ansiedade e transtornos depressivos, dentre outras doenças psiquiátricas. Os medicamentos que agem diretamente no sistema nervoso central também podem causar uma perda significativa de memória recente.

Mas, se você não sofre de nenhuma das causas apontadas, há outros motivos para essas falhas de memórias. Entre elas, estão os estímulos sensoriais em excesso (sons, imagens…), acidentes vasculares, doenças degenerativas, efeitos ambientais como ondas eletromagnéticas, radiação, calor, entre outros. William lembra que eventos traumáticos podem afetar o acesso a recordações recentes: “inclui-se aí qualquer tipo de evento, seja ele a perda de um ente querido ou um assalto”.

 

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Imagem: Giphy.com / Reprodução

Memória dos jovens x memória dos adultos

O psicólogo João Oliveira distingue os principais motivos dessas falhas entre grupos de idade. “Em adolescentes, provavelmente a maior fonte causadora de falhas no funcionamento da memória recente são as drogas lícitas e ilícitas”, aponta. “O álcool, entre outras drogas, influencia diretamente no rebaixamento do sensório (uma região do cérebro), que afeta a consciência”, indica William.

Já em adultos, o estresse excessivo no trabalho é uma das maiores fontes para acelerar a perda da capacidade plena de memória. “O estresse aumenta a quantidade de neurotoxinas, que alteram o funcionamento normal do sistema nervoso central, ocasionando essa perda”, esclarece William Ferraz. Ou seja, se você tem enfrentando dificuldades para se recordar de coisas bem recentes, será que não está passando por situações muito estressantes no seu ambiente profissional?

 

-- Eu não quero esquecer. Imagem: Divulgacao / Disney / Pixar

— Eu não quero esquecer.
Imagem: Divulgação / Disney / Pixar

Quando é demais

É claro que ninguém possui um cérebro tão potente, a ponto de recordar de tudo o que vivenciou da infância até hoje. Afinal, todos nós estamos sujeitos a nos esquecer de alguns detalhes ou, até mesmo, fatos importantes em nosso cotidiano. Contudo, quando esses esquecimentos se tornam constantes demais, é sinal de que algo não está correndo bem.

“Se for um quadro recorrente, trata-se de um distúrbio. Essa situação deve ser analisada com maior atenção para descobrir a causa e tentar recuperar a estrutura de memória normal”, indica João Oliveira. Psicólogos e neurologistas são alguns dos especialistas que devem ser procurados em casos assim.

 

Imagem: Divulgacão / Disney / Pixar

Imagem: Divulgação / Disney / Pixar

Para fortalecer a memória

Mas não se preocupe se seus esquecimentos não forem tão graves assim, ou se não ocorrerem com tanta frequência. É porque existem algumas maneiras de estimular seu cérebro e fazer o órgão funcionar melhor. Algumas atividades simples e rotineiras podem treinar a memória recente. William Ferraz e João Oliveira indicam várias delas:

– crie o hábito de anotar as coisas. Podem ser lembretes e sistemas de check-list;
– pratique meditação;
– brinque com jogos que envolvam concentração ou memória;
– jogue videogame;
leia livros e jornais com frequência;
– toque instrumentos musicais;
– tenha uma alimentação saudável;
– separe mais momentos para o lazer;
– pratique atividades físicas ao menos três vezes por semana. A Dory dá uma dica: “Continue a nadar, continue a nadar…”

 

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CONSULTORIAS: João Oliveira, psicólogo, professor universitário, mestre em cognição e linguagem e diretor de cursos do Instituto de Solidariedade Emocional e Cultural (ISEC); William Ferraz, master coach especialista em inteligência emocional do IDEAH (Instituto de Desenvolvimento Emocional e Aperfeiçoamento Humano), em São Paulo (SP), terapeuta e especialista em Programação Neurolinguística – PNL.

TEXTO E ENTREVISTAS: Ricardo Piccinato