Desnutrição hospitalar: distúrbio sério e pouco discutido

Trata-se de uma assunto considerado comum nos ambulatórios brasileiros, mas que não recebe a devida atenção

Conheça os perigos da desnutrição hospitalar.
Conheça os perigos da desnutrição hospitalar. FOTO: Shutterstock

A desnutrição hospitalar é o distúrbio mais comum nos ambulatórios brasileiros, acontece com 19% a 80% dos pacientes que se encontram em estado mórbido.  Os riscos só aumentam quando usa-se bolsas de nutrição parenteral (NP) de origem industrializada. Essa medida terapêutica (as bolsas de NP) somente é adotada quando o paciente não encontra-se em condições de alimentar-se normalmente.

Um estudo realizado pela revista especializada Clinical Nutrition revela que de 40% a 60% dos pacientes dos hospitais da América Latina são atingidos pela desnutrição. A pesquisa reuniu dados de 66 periódicos de 12 países diferentes, sendo que a maioria deles eram de origem brasileira. “A desnutrição intra-hospitalar aumenta os riscos de mortalidade e complicações, como infecção e diminuição da cicatrização de feridas, além dos custos hospitalares. Negligenciar o estado nutricional dos pacientes, é negligenciar parte do tratamento e recuperação da saúde do paciente.” afirma o médico nutrólogo Guilherme Araújo.

Bolsas de nutrição parenteral manipuladas

A IBRANUTRO, simpósio feito pelo Instituto Brasiliense de Nutrologia, discutiu o fato de que os riscos de morte aumentam em até 4 vezes nos casos de desnutrição hospitalar. Para que a alimentação realizada pelas bolsas de NP sejam completas, elas precisam conter todos os nutrientes necessários para uma pessoa viver: água, carboidratos, lipídios, aminoácidos, vitaminas, eletrólitos e oligoelementos. Tal condição somente é encontrada nas bolsas manipuladas, que são feitas conforme a demanda de cada paciente.

A desnutrição é o distúrbio da saúde mais comum nos hospitais brasileiros, presente em 19 a 80% dos pacientes hospitalizados.

A desnutrição é o distúrbio da saúde mais comum nos hospitais brasileiros, presente em 19 a 80% dos pacientes hospitalizados. FOTO: Shutterstock

“Muitos pacientes recebem o tratamento com foco apenas na condição clínica ou doença que motivou a procura ao hospital. No entanto, infelizmente, parte destes pacientes não é submetida a uma triagem nutricional para que seja possível identificar o risco nutricional e muito menos a uma avaliação completa para que seja possível o diagnóstico em relação a nutrição.” complementa o médico Intensivista Fabiano Girade Corrêa.  As NP industrializadas e usadas indiscriminadamente, sem um acompanhamento médico, não suprem as necessidades nutricionais de grupos específicos. Esse pode ser um fator agravante dos quadros de desnutrição no hospitais brasileiros.

Questões de mercado

Trata-se de uma questão sensível o uso de bolsas de NP, pois existem interesses de industrias farmacêuticas na venda das bolsas de alimentação industrializadas. Como essas são empresas de grande influência no mercado brasileiro e como há um desencontro entre a Associação da Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) sobre a quem cabe levar esse assunto à discussões maiores, a desnutrição hospitalar acaba sendo um assunto que não recebe a merecida atenção.

 

Texto: Michele Custódio/Colaboradora | Consultoria: Fabiano Girade Corrêa, médico Intensivista pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE) e Guilherme Araújo, médico nutrólogo pelo Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP)

 

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