Criatividade: fruto de treino, dom divino ou herança genética?

Matriz de grande parte das invenções humanas, a criatividade é um mecanismo que, na verdade, pode ser exercido por todos nós!

ilustração de um cérebro com fechadura, com uma chave prestes a abri-lo
(Foto: Shutterstock)

Ao refletirmos sobre nossas atitudes, podemos ver que todas carregam consigo algo novo. Como já apontou o filósofo grego Heráclito, “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, pois toda ação traz peculiaridades únicas. Sabemos que ter ideias novas é algo recorrente em nossas vidas, somos capazes de fazê-lo nas relações pessoais e profissionais. Mas, se agir de maneira única é algo tão comum, qual a razão de ainda encararmos a criatividade como um desafio?

Isso acontece porque a inovação só se torna relevante — para nós mesmos ou para as pessoas ao nosso redor — quando somos capazes de transformá-la em uma utilidade para experiências pessoais, artísticas, profissionais ou intelectuais. O grande desafio é conciliar a imaginação com uma função inédita na realidade. A boa notícia é que, diferente do que muitos acreditam, a criatividade não é simplesmente um dom.

Genética ou treino?

Podemos ser comumente levados a pensar que a criatividade é um aspecto exclusivo de algumas pessoas. Observar ao redor e encontrar aqueles capazes de desenvolver obras, projetos e músicas, de forma aparentemente natural, intensifica essa impressão. No entanto, essa perspectiva não é cem por cento verdadeira.

Segundo João Ilo Coelho, doutor em pesquisa do comportamento e professor do departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, “o que difere uma pessoa criativa é a sua sensibilidade a detalhes e nuances da realidade, permitindo que seu comportamento se volte mais aos aspectos menos perceptíveis. Isso pode ter sido desenvolvido naturalmente desde pequeno, de acordo com o ambiente no qual a pessoa vive, mas também pode ser treinado”.

Apesar de alguns estudos já terem apontado uma relação entre determinados genes e algumas aptidões criativas, o nosso cérebro é fortemente influenciado pelo contato que tivemos com essa aptidão durante nosso desenvolvimento e por aspectos do nosso dia a dia. De acordo com o professor, as ligações apontadas pelas pesquisas ainda não provaram que as variantes genéticas são determinantes para nossa criatividade. João considera que “a experiência particular de treinar um olhar diferenciado parece ser a razão mais provável” para um desenvolvimento maior da imaginação.

Eureka!

Diversas características cotidianas podem estar relacionadas ao nosso desempenho criativo. John Kounious, neurocientista e co-autor do livro The Eureka Factor (em português, O Fator Eureka), citou, em entrevista ao site do jornal norte-americano Washington Post, duas dessas condições:

  1. Bom Humor: o bom humor nos deixa mais sensível às ideias que estão no inconsciente, permitindo que nossa atenção seja desviada para elas quando surgirem. Os prazos costumam impulsionar uma produtividade maior, contudo, podem gerar estresse e nos distanciar do contato com soluções que fogem do comum. Uma ideia nova surge a partir do estado em que nosso cérebro se encontra, relacionado com a sensação de segurança e conforto.
  2. Espaços grandes: a maneira como nossa percepção de imagens se dá está ligada as concepções que desenvolvemos.

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