Entrevista com Reynaldo Gianecchini

Avalie

Entrevista com Reynaldo Gianecchini  

O ator fala do retorno à tevê para encarnar seu primeiro vilão

Guia da Tevê: Você ficou dois anos longe da tevê. Como foi esse retorno?

Reynaldo: É a terceira novela que eu faço do Sílvio de Abreu e, mesmo antes de eu começar a atuar, sempre assisti aos trabalhos dele e me amarrava no humor dele e nas tramas que ele consegue desenhar. Estou muito animado.

Guia da Tevê: Esse é um retorno seu ao Rio também. Como tem sido?

Reynaldo: Fiquei muito tempo fora do Rio sim. O Rio é a minha base, eu estou sempre voltando para cá, mais cedo ou mais tarde. Mas realmente fiquei bem fora nesses dois anos. E foi legal redescobrir São Paulo. Depois que eu me separei, me afastei um pouco de lá e, com a minha peça, voltei a descobrir a cidade. Procurar novos amigos, novos lugares para frequentar, isso me fez ver como São Paulo é mesmo importante na minha vida.

Guia da Tevê: O que você fez nesse tempo?

Reynaldo: Fiquei cuidando de mim. Estou sempre muito atento a tudo. Gosto de estudar e aproveitei para fazer aquelas coisas que a gente gosta e, por estar sempre ocupado, não consegue. Fui bastante ao cinema, fiquei tocando alguns projetos, cuidando mesmo de mim. Tive tempo até para não fazer nada, reciclar minhas ideias.

Guia da Tevê: O que é cuidar de você?

Reynaldo: Tudo! Ter mais tempo para me exercitar, cuidar do lazer, ver alguns filmes, sair, se divertir, namorar… Se bem que eu não namorei não.

Guia da Tevê: Você pendurou um pingente na camisa. O que é?

Reynaldo: Isso aqui é uma coisa de mãe. A gente ganha e não recusa. É de proteção. Ela me deu e eu decidi usar. Coloco de vez em quando.

Guia da Tevê: Foi uma escolha sua voltar como vilão?

Reynaldo: Quando eu estava terminando “Sete Pecados”, o Sílvio disse que ia escrever um papel para mim nessa novela e que seria bem diferente de tudo que eu já tinha feito. Desde então estou muito excitado com essa ideia. Veio sob medida.

Guia da Tevê: Você disse que consegue brincar mais e usar coisas que nunca teve oportunidade na tevê. O que exatamente?

Reynaldo: Técnica é uma coisa que você aprendeu, mas não sabe dimensionar o quanto. Quando você está em cena é que percebe o quanto absorveu. Algo que me ajuda é que, depois de 10 anos de televisão, já tenho um pouquinho mais de tranquilidade para brincar com um monte de coisas. Quando eu estreei era um caos, foi muito difícil para mim.

Guia da Tevê: Você chega a emprestar alguma característica sua para ele?

Reynaldo: Eu sempre procuro emprestar algo para o personagem. Quero que ele seja carismático, que seja gostoso acompanhar as trambicagens dele.

Guia da Tevê: Esse é o papel mais sensual que você já teve?

Reynaldo: Esse personagem é o mais sexual de todos. O Pascoal tinha um lado mais sexy, só que também era mais inocente. Agora não, tudo que ele faz é com tintas fortes.

Guia da Tevê: O que o público pode esperar do seu personagem?

Reynaldo: Ele não tem um lado pesado ou agressivo. É aventureiro, gosta do perigo, por isso é um cara bem legal de se acompanhar. Eu tenho um lado aventureiro também, mas é bem diferente do dele. Curto estar meio que na corda bamba. Ser desafiado me motiva. Esse papel mesmo é um desafio enorme, não estou na zona de conforto. Tenho de buscar ele com força, porque é bem difícil. É uma aventura fazer televisão. São milhões de pessoas em casa prontas para assistir àquele produto. Para mim, é uma aventura enorme estar aqui.

Guia da Tevê: O que você fez para compor esse personagem?

Reynaldo: Meu primeiro ponto de partida é buscar informação. Você não sabe como ele é inteiro, não sabe para onde vai, então eu fui ver filmes de vilões, com pessoas que eu admiro. Fui abastacendo a minha mente de muitas informações que podem me ajudar ao longo desse trabalho. E observei muito o compartamento das pessoas, de grandes personagens, tentei entender o que move os seres humanos.

Guia da Tevê: Então não precisou controlar a alimentação, nada disso?

Reynaldo:  Fui gravar na Itália e lá, sim, foi um sufoco. Falei até para a Mariana que iríamos voltar os dois gordinhos, porque era uma tentação. Claro que a gente não pode enfiar o pé na jaca, até por uma questão de saúde. Eu não conseguiria ser gordo. Não tenho essa neura de ser sarado, é uma questão de saúde mesmo.

Guia da Tevê: Muitos atores acham especial fazer um vilão. Você está passando por isso?

Reynaldo: É especial porque ele é mais colorido e isso dá mais oportunidade para brincar com mais ferramentas que você tem. É como se eu estivesse fazendo vários personagens. Fora que ter a permissão para fazer maldades é bem legal. Na vida, a gente tenta sempre ser tão correto, mesmo se ferrando muitas vezes, mas aqui eu tenho permissão para ser escroto, para ser ruim.

Guia da Tevê: Você chegou a dizer que seu início na tevê foi difícil. Por quê?

Reynaldo: Os primeiros trabalhos foram muito difíceis. Nesses dez anos, rolou um tempo em que caíram, aos poucos, um monte de fichas, de puro aprendizado mesmo. Fui muito um aprendiz. O que ainda sou, porque ator não pode achar que sabe fazer. Segurança é um termo que não se aplica aos atores, porque brincamos com a alma dos seres, não é algo matemático. Mas hoje em dia eu sei que já aprendi um monte de coisas para ter tranquilidade. Tenho muito orgulho de ter feito “Esperança”, por exemplo. Revejo hoje algumas cenas e acho que tem uma consistência enorme. E é uma novela que nem foi tão elogiada. Trabalhei com o Luiz Fernando Carvalho, que é um mestre. A novela teve muitos problemas, mas vejo cenas muito boas. Foi minha terceira novela. E quando fiz os gêmeos em “Da Cor do Pecado” foi bem bacana também. Já o Pascoal me ajudou na comédia, porque eu estava com a Cláudia Raia e o Cacá Carvalho, dois “experts”. “Esperança” foi talvez a primeira vez que eu tive orgulho de olhar uma cena minha.

Guia da Tevê: Você chega a assistir essas cenas com outras pessoas?

Reynaldo: Nunca gostei muito de assistir o que eu faço. Acho que qualquer ator vai dizer que não é uma situação confortável.

Guia da Tevê: Você já pensou em desistir da carreira de ator?

Reynaldo: Algumas vezes. Mas por tudo, não quero ficar citando um motivo específico. No começo, era muito difícil para mim essa questão de ficar tão exposto. O trabalho em si já expõe. Mas a exposição pessoal me bagunçou muito. Questionei um pouco se era isso que eu queria. Só que o tempo me mostrou que é isso que eu quero, sim. Não tenho um plano “B”. Hoje, eu já lido muito bem com esse pacote.

Guia da Tevê: Você está de chapéu. Algum motivo especial?

Reynaldo: Acabei de voltar da Itália e sou louco por chapéu, meu velho. Adoro um chapéu. E a gente usa muito pouco aqui no Brasil. Vi vários modelos incríveis lá.

Guia da Tevê: Você comprou muitas coisas na Itália?

Reynaldo: Não faço compras, sou péssimo consumidor.

Guia da Tevê: Como vai ser o figurino que você vai usar em cena?

Reynaldo: Vou ter fases diferentes. Ele sempre procura se vestir para estar bem, para estar gatinho e sedutor. Mas nunca teve muito dinheiro. Aí, quando passa a ter, pode se vestir melhor.

Entrevista: Márvio Gonçalves
Foto: Márcio de Souza

Mais lidas