Dislexia e TDAH podem ser tratados sem intervenção medicamentosa

Dislexia e TDAH podem ser tratados sem intervenção medicamentosa

Foto: Thinkstock/Getty Images

Dislexia, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e outros distúrbios de comportamento são diagnósticos médicos cada vez mais comuns entre crianças e adolescentes. Em comum, eles têm a queixa de que prejudicam (e até impedem) o aprendizado escolar, o que resulta na administração de medicamentos para amenizar os problemas pedagógicos na sala de aula (e em casa também!).

Mas será que o uso dos remédios é realmente o meio adequado para lidar com os problemas de aprendizagem? A médica pediatra Maria Aparecida Moysés, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), garante que não. Para ela, atribuir o fracasso escolar à dificuldade do aluno em aprender (dificuldade essa causada por uma doença infantil) é uma desculpa que encobre uma série de conflitos presentes no processo de ensino-aprendizagem na escola e na família. Confira o que a especialista tem a dizer a respeito.

1. Como você vê a associação entre dificuldades de aprendizado e diagnósticos médicos?

“O processo da medicalização consiste em enquadrar um problema coletivo, político-social, e torná-lo individual, em forma de transtorno psicológico. Isso vem acontecendo de forma crescente e assustadora no país, desconsiderando a baixa qualidade da educação que temos, apontada por diversos índices mundiais. Deixa-se de discutir fatores complexos como a formação e remuneração de professores e a falta de políticas educacionais e projetos pedagógicos para atribuir a responsabilidade pelo fracasso escolar a uma doença.”

2. Seria radicalismo de alguns profissionais de psicopedagogia dizerem que a dislexia ou a hiperatividade não existem? Há uma relação biológica/educacional?

“Não é que não exista, mas há uma dificuldade em se provar cientificamente que existe. Problemas como os citados ganharam espaço no início do século 19 e, desde então, recebem novos nomes, mas mantêm a mesma essência. A comprovação da doença, no entanto, não ocorre. Para se confirmar um problema neurológico ou neuropsiquiátrico, é preciso proválo. Portanto, o questionamento não é uma postura de radicais, mas um consenso entre os que contestam tais diagnósticos.”

3. Alguns pais notam melhora no comportamento dos filhos após o uso de medicamentos como a Ritalina®. Quais os efeitos?

“O problema da medicalização é agravado quando a criança é submetida ao tratamento medicamentoso (o diagnóstico médico é o passo inicial para configurar esse processo). O princípio ativo de todas as fórmulas é derivado de anfetaminas, substâncias que aumentam a quantidade de dopamina nas sinapses. Esse neurotransmissor é responsável pela sensação de prazer, que acaba condicionado pela droga, criando uma relação de dependência. Dados mundiais apontam a dificuldade que jovens de 18 a 20 anos têm para deixarem o tratamento. As consequências são percebidas a longo prazo e comprometem a capacidade do indivíduo ter satisfação natural.”

4. O comportamento da criança fica alterado?

“Por ser barato, de fácil acesso e indicado pelo médico, os pais adotam esses medicamentos, que podem trazer reações diversas: dores de cabeça, distúrbios do sono, alucinações e alterações cognitivas, além de vários outros problemas orgânicos. Agir como “zumbi” é um resultado clássico que surge nas crianças medicadas. Elas ficam presas em si mesmas e o quadro é semelhante ao de dependência química por cocaína, por exemplo. Assim, ela foca a atenção em algo e fica paralisada, o que não significa estar concentrada. Por conta da intensidade da droga, a identidade vai sendo comprometida e o aprendizado não melhora, como foi prometido. O que se deve pensar é: a custo de quê a atenção da criança será garantida? O uso de drogas não é terapêutico e deve ser interrompido imediatamente. Tudo isso é incoerente com a atual proposta de educação por meio da vivência.”

5. O desenvolvimento físico sofre alguma consequência?

“Todos os hormônios se alteram, inclusive os sexuais e de crescimento. Estudos apontam que adolescentes sob o uso de medicamento para controle de atenção correm riscos elevados de morte súbita. É injustificável tratar problemas de comportamento com drogas que causem danos tão sérios à saúde.”

6. Atualmente, vive da cultura da “pílula mágica” ou pílula da obediência. O que a Sra. pensa disso?

“A promessa de produtividade atrai muitas pessoas. Não só jovens universitários, por exemplo, são usuários de drogas que garantem um melhor rendimento nos estudos. A prática é antiga. Alguns diziam tomar uma “bolinha” para dar conta do trabalho, mas todos sabiam dos riscos. O que vem mudando agora é que se diz que tomar as mesmas drogas, ou semelhantes, é uma prática segura, quando na verdade não é. Houve uma naturalização dessa questão. A omissão das reais consequências disso é extremamente perversa.”

7. Qual o papel do educador diante da medicalização?

“O trabalho pedagógico é o que desenvolve o aprendizado. O educador, no entanto, fica refém da situação, pois um laudo médico afirma que aquela criança não pode ser reprovada, por exemplo. O professor ainda recebe o estigma de não ter competência para lidar com a doença. Na prática, diante de um problema real, a melhor forma de ensinar é abstrair o transtorno e olhar a criança como um todo. Somente dessa forma um programa educacional poderá ser adequado para atender à necessidade daquele aluno. A criança e o adolescente têm o direito de aprender, mas os laudos médicos destroem essa garantia.”

8. O diagnóstico tira a autoridade do professor em relação ao aprendizado?

“Absolutamente, sim. É uma cultura perigosa de transferência de papéis e responsabilidades. Por isso, a crítica à medicalização é um movimento crescente em todo o mundo. Várias entidades e associações ligadas à educação no Brasil estão se mobilizando para combater essa atitude danosa à formação de crianças e adolescentes.”

O que é medicalização?

“É o processo em que questões não-médicas são transformadas em doenças, transtornos e distúrbios, isto é, questões biológicas. São respostas deturpadas para problemas políticos, sociais, culturais ou afetivos que interferem na vida humana. Tirase o foco do coletivo para responsabilizar o indivíduo. Governos, autoridades e profissionais são eximidos, enquanto a suposta doença provoca sofrimento na pessoa e na família”, diz Maria Aparecida.

Acompanhe
O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade é formado por diversas instituições brasileiras ligadas à educação a fim de combater o problema. (Veja o manifesto do grupo no site www.crpsp.org.br). Além disso, um projeto de lei de autoria do vereador Eliseu Gabriel, representante da Câmara Municipal de São Paulo, anunciou o dia 11 de novembro como o Dia Municipal de Luta contra a Medicalização na Educação. Outras manifestações estão previstas envolvendo todo o estado. Confira e engaje-se!

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