Maitê Proença revela os segredos de sua personagem em ‘Liberdade, Liberdade’

Em entrevista, Maitê fala sobre seu papel como Dionísia

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Reprodução/Globo

por Redação Alto Astral
Publicado em 12/05/2016 às 10:42
Atualizado às 20:53

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Maitê Proença voltou para as telinhas em ‘Liberdade, Liberdade‘ com uma personagem polêmica. Libertina e sedutora, Dionísia é uma mulher aristocrata que faz de escravos verdadeiros objetos, e vive entrando em embates com a sobrinha, Joaquina. Maitê conversou com Alto Astral e revelou alguns segredos sobre sua personagem. Confira o papo:

Maitê Proença

Reprodução/Globo

Como é representar uma mulher vaidosa do século XVII? 
“Não se prepara nem a pele para gravar. O que, no fundo, representa a vaidade para a personagem é uma peruca branca. Mas, ainda assim, meio que mal colocada, com os cabelos debaixo ainda aparecendo, meio sem jeito. É que mesmo lá, no meio do nada, naquele sertão, sem conforto, ela faz questão de mostrar esse amor pela aristocracia e algum apego pela civilidade.”

Fale um pouco sobre Dionísia. 
“É uma mulher de fortes contradições. Ama os protocolos aristocráticos, as regras da corte, extremamente católica, mas submete os escravos a práticas sexuais. E ai se não sair do jeito que ela goste. Porque, se não, manda para o pelourinho. Olha que delícia.”

E os abusos com escravos? Como Dionísia lida com isso?
“Faz como quem toma um chá. Ah, cansei da vida, vem cá. Se ela está um pouco tensa, teve um aborrecimento, manda fazer do jeito que ela gosta.”

Como serão as cenas quentes que estão previstas para a sua personagem?
“Creio que não serão cenas fortes, não sei o quanto será exibido. Afinal, o Mario Teixeira não é um autor que descreve muito as cenas, até para deixar o diretor e os atores com liberdade para faze-la como convier. A gente vai resolver ali na hora. Mas eu, como espectadora, prefiro que tudo seja mais sugerido do que efetivamente mostrado.”

Como você vê a relação entre Dionísia e Joaquina?
“Ela reprime a sobrinha, porque elas entram em confronto. A Joaquina veio para contradizer o que essa mulher sempre achou que era certo. O que ela considera blasfêmia, o que para ela naquele momento, naquele lugar, parece correto. Mas esse é o barato. Porque todos nós somos tão cheios de contradições.”

Dionísia tentou matar o marido. Como você acredita que isso abre os olhos das pessoas em relação à violência doméstica nos dias atuais?
“Tentou mas não conseguiu, o que ela lastima muito. Afinal, sofria violência doméstica, tem marcas no corpo dos maus tratos que ele a submetia todas as noites. Até o dia em que ela se revoltou. E não dormiu. A melhor maneira de fazer as pessoas pensarem é contando histórias. É assim desde que o mundo é mundo, e os nossos ancestrais sentavam em volta de uma fogueira. Aprendemos melhor ouvindo histórias porque, assim, traçamos relações com a nossa vida, ainda que de forma indireta, sem a pressão de alguém estar nos impondo uma tese. Falo de emoção. E para que eu possa fazer esse apelo, tenho que fazer a personagem da forma mais verdadeira possível.”

Você vê semelhanças entre Maitê e Dionísia?
“Sim, até porque vou colocar todos os meus sentimentos ali. A gente sempre tenta compreender o personagem, mesmo que não se identifique com uma série de coisas. Tem que ser feito um esforço. Como em qualquer relação. Quantas vezes, em um casamento, a gente não engole uns sapos que não quer? Ou quando os filhos da gente fazem algo que não aprovamos, vamos deixar de amá-los ainda assim? É preciso não ter preconceito. Não sei se estivesse no lugar da Dionísia, se reagiria de forma diferente dela. Não vivi aquilo, não posso dizer. Esse é o único lugar possível para passar verdade em um personagem.”

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Maitê Proença

Reprodução/Globo

Você acha que o telespectador de hoje em dia é mais careta?
“Acho que houve abusos e o público se sentiu usado. Ninguém é bobinho e, por causa de um peitinho aqui, outro ali, vai dar audiência. Houve uma vulgarização no uso da nudez. Claro, é bom fazer quando é necessário, se vai contribuir para a cena, para contar uma história. Mas, às vezes, é só um mecanismo para caçar público.”

O que você acha dessa trama política justamente diante de um cenário tão conturbado no Brasil?
“Acho apropriado. Mostra que estamos lutando pelos mesmo direitos desde sempre. Essa história veio em um momento muito feliz, de virada. Liberdade, Liberdade mostra que um povo só é digno se tiver educação e cultura, porque é a única maneira de alguém bancar sua opinião e lutar pelo que acredita. Afinal, se não for assim, vamos continuar aceitando as verdades que nos são impostas. A gente tem um povo tão humilde, que já foi tão humilhado, massacrado, que sente que não tem valor. Um país assim não é um bom lugar para se estar. Afinal, vamos entregando os pontos. E, para uma pessoa mais sem condições, fica fácil aceitar o que aquelas pessoas que tem dinheiro pensam, porque, sem autoestima, vamos acreditando que elas devem mesmo ser mais inteligentes. Que sabem mais do que a gente.”

Como justificar a paixão de Dionísia por Salviano, seu escravo preferido?

“A Dionísia é uma senhora de escravos e os trato como peças, não como pessoas. Esse, aliás, é um dos embates dela com a sobrinha Joaquina (Andreia Horta). Para a fidalga, ela comprou e faz o que bem entende com esses negros. E as pessoas realmente pensavam isso. Afinal, os negros foram por séculos rotulados como animais. Muitas mentiras foram inventadas sobre esse povo para justificar a escravidão. O preconceito surge aí.”

E, ainda assim, há quem insista em ser racista…
“A gente vive em um país que não tem memória, é incrível.”

Você acha que pessoas como Dionísia só existiram no nosso passado colonial?
“Não sei se estamos inventando não, viu. Acho que uma mulher como essa não é coisa da ficção. Acho muito provável que existam muitas Dionísias por aí.”

Você acredita que a mulher também sofre muito com essa herança do Brasil colônia?
“Vai demorar muito. A mulher também sofre com sua escravidão. Há países em que elas são obrigadas a casar com quem não gosta, a ter filhos que não desejam. Não tem direito a herança, a educação, ao trabalho. Não podem nem se cuidar sozinhas.”

A novela está na boca do povo? 
“As pessoas gostam de ver as mulheres em lugar de comando. Até porque, na sociedade, você vê o posto. As histórias extraordinárias chamam atenção, porque o corriqueiro dá para ver da janela de casa.”

Maitê Proença

Reprodução/Globo

Entrevista: André Luís Romano

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