Mães não precisam – e nem devem – dar conta de tudo

Sentimento presente durante a maternidade, o medo de "não dar conta de tudo" surge quando é necessário equilibrar jornadas duplas ou triplas de trabalho

A romantização da maternidade contribui muito para que esse sentimento exista
A romantização da maternidade contribui muito para que esse sentimento exista - Shutterstock

por Loyane Lapa
Publicado em 08/03/2022 às 09:00
Atualizado às 09:00

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Nas últimas semanas, um relato muito sincero chamou a atenção do público da internet. Nele, a jornalista Andréia Sadi fala sobre conciliar a vida, a maternidade, sobre o sentimento que isso causa e sobre como ela não consegue dar conta de tudo. 

“Gente, vou contar uma coisa e acabar com essa romantização: eu não dou! Faço o que dá e priorizo o que preciso resolver naquele dia. Todo o resto, finjo que não estou vendo, deixo para depois, faço meia-boca ou não faço. E mais: acho que ter gêmeos acabou me aliviando um “dar conta” de relações também, uma culpa que eu tenho com tudo: por estar longe da família, dos amigos... Todo o tempo em que não estou trabalhando fora é dos meninos. Então, tento otimizar o que eu posso, e deixo pelo caminho o que sei que não vou conseguir fazer. Mas, ao mesmo tempo em que resolvi isso na cabeça, ainda não descobri como me encaixo, como fica a mulher Andréia.”

E esse é um assunto comum entre muitas mães: a culpa por não dar conta de tudo. A sensação está diretamente relacionada com a romantização da maternidade, termo utilizado para atribuir a visão distorcida de que ser mãe é um momento maravilhoso da vida e que tudo é muito "perfeito".

Porém, o que acontece no mundo real é totalmente diferente. Existem mães que vivenciam esse processo sem uma rede de apoio e até mesmo aquelas que, mesmo com uma rede de apoio, se sentem sozinhas no processo de maternar

Ana Luiza Abreu, 23, que é mãe solo e estudante, revela que vive constantemente com a culpa por não dar conta de tudo. Em sua rotina, cabe o papel de criar sua filha de 3 anos, finalizar a graduação e trabalhar. O problema é que o não dar conta nessa tripla jornada acaba gerando uma outra sensação: a de terceirização da maternidade. Por precisar lidar com os estudos e com o trabalho, sua filha passa boa parte do tempo com a avó.

“É um misto de sentimentos, de querer fazer mais. Às vezes, eu queria que o meu dia tivesse, sei lá, 30 horas. Tem dias que eu estou com um humor ruim porque eu quero aprender a lidar com todas essas situações que estão acontecendo na minha vida e dar um jeito, mas não consigo. Eu me culpo porque eu acabo deixando ela [filha] com a minha mãe, parece que eu estou terceirizando a criação, a responsabilidade e parece que eu tô sendo uma mãe ruim…”

Ana explica também que, para ela, esse fardo é ainda mais pesado “por ser uma mãe solo dentro de uma sociedade que obrigam mulheres a serem uma mãe tradicional. A sensação que fica é a de ‘onde foi que eu errei?’”

Como lidar com o sentimento de que "não damos conta de tudo"?

De acordo com a psicóloga Anna Nogueira, é importante que as mães "escolham as suas batalhas para lutar", no sentido de que é preciso definir com o que gastar sua energia. 

Para ela, reduzir as expectativas e a cobrança é uma maneira de encarar esse sentimento. "Não se engane com a grama verde da vizinha! Não se compare a outras mães, nem com a sua própria ou com as 'mães de antigamente' que tinham 15 filhos", reforça a profissional.

A especialista também ressalta cinco pontos para lidar com a sensação:

  • Estabeleça suas próprias prioridades, ou seja, aquelas que fazem sentido para VOCÊ;
  • Respeite seus limites;
  • Peça ajuda;
  • Se tiver marido, chame para a responsabilidade;
  • Pegue leve com você mesma.

O “não dar conta” no mercado de trabalho

Outro dilema enfrentado pelas mães é no mercado de trabalho. Muitas vezes, esse é um local que não dá acolhimento, gerando uma diferença de comportamento dependendo do gênero. Quando um homem assume que vai ser pai, tudo continua igual. Já quando uma mulher assume que será mãe, o cenário muda um pouco.

Essa é uma questão que afeta não só as que já são mães como também as mulheres que acabam postergando esse desejo de maternar por – novamente  – sentirem que não vão dar conta. O problema é que esse sentimento também faz com que mulheres acabem desistindo por conta de seu momento na carreira

Mulher trabalhando junto com o filho
Várias mulheres acabam perdendo promoções de carreira pelo fato de serem mães (Foto: Shutterstock)

Michelle Terni, CEO de uma consultoria focada em criar programas de parentalidade nas empresas, explica que, na trajetória profissional, as mulheres ainda encontram uma espécie de “degrau quebrado”, uma metáfora para representar a dificuldade de muitas mulheres em evoluir para cargos gerenciais em suas carreiras. “Quando elas estão subindo, um “degrau”, se quebra. E não é coincidência que isso acontece, na maioria das vezes, durante sua idade fértil”, destaca.

Segundo a pesquisa Women in the Workplace / Mckinsey 2021 sobre representação feminina no mercado de trabalho, esse degrau fica explícito quando se percebe que 48% dos cargos de entrada nas empresas são ocupados por mulheres, enquanto nos cargos de gerência e diretoria elas são 35%. Para cargos C-Level, o índice é ainda menor, 24%.

“Propomos uma troca do OU para o E. Não é filhos OU carreira, é filhos E carreira. Trabalhamos para que a decisão de maternar seja única e exclusivamente da mulher, e não por medo da falta de acolhimento no seu ambiente de trabalho. Cabe às organizações colaborarem na desconstrução desses vieses repetidos na sociedade, entre eles o de que a mulher precisa justificar escolhas”, conclui Michelle.

Fonte:Anna Nogueira, psicóloga perinatal e familiar; Michelle Levy Terni, CEO da Filhos no Currículo.

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