Precisamos falar sobre a representatividade no Oscar 2020

Natalie Portman e sua capa bordada, quatro prêmios para o coreano Bong Joon-Ho, as representatividades feminina e negra - e a falta delas

Bong Joon-Ho Oscar 2020

A cerimônia do Oscar 2020 aconteceu no último domingo (9) e nós, telespectadores, fomos surpreendidos – ou não – novamente com alguns padrões da premiação.

Para começar com notícia boa, o prêmio de Melhor Diretor foi para Bong Joon-ho, o sul-coreano responsável por “Parasita” – obra que também levou a estatueta de Melhor Filme neste ano.

Certo que a vitória de direção é protagonizada há anos por diretores não-europeus ou norte-americanos, como é o caso dos mexicanos Alejandro Iñarritu (vencedor em 2015 e 16), Alfonso Cuarón (vencedor em 2014 e 19) e Guillermo del Toro (vencedor em 2018) – e isso é ótimo. Mas como nem tudo são flores, também existe uma repetição um tanto problemática na categoria: cadê as mulheres?

Esta ausência não é de hoje. Em 92 anos, desde a primeira edição do Oscar, em 1929, apenas cinco diretoras foram indicadas ao prêmio. Dessas cinco, só uma saiu vencedora: Kathryn Bigelow, com Guerra ao Terror, em 2011 – na 83ª edição do prêmio. Mas isso não deveria ter melhorado?

Em 2019, ano em que filmes dirigidos por mulheres foram sucessos de bilheteria e ganharam destaque da crítica cinematográfica, faria sentido ter ao menos um nome feminino indicado à categoria – mas não teve. Todos os concorrentes do último domingo eram homens e quase todos brancos, exceto pelo vencedor – pelo menos!

Mas, mesmo que a academia ainda esteja na contramão das lutas sociais, alguns atores e diretores felizmente não se calam perante as discriminações.

Os bordados de Natalie Portman

Ainda que Edna Modas tenha dito “nada de capas” (referência à animação “Os Incríveis”), Natalie Portman foi contra as regras e completou seu look espetacular do Oscar 2020 com uma capa – tudo assinado pela grife Dior. Seria clássico se só falássemos da roupa de uma atriz que costuma ser mais valorizada por sua beleza que por qualquer outra qualidade que tenha, certo? Mas não aqui.

Os holofotes se viraram para Portman na premiação deste ano por sua produção, sim, mas por um motivo especial: a atriz bordou os nomes das diretoras que poderiam – e deveriam – ter sido indicadas para o prêmio de Melhor Diretor na lapela de sua capa.

Alguns dos nomes foram: Gerwig (Greta Gerwig, diretora de “Adoráveis Mulheres”), Scafaria (Lorene Scafaria, de “As Golpistas”), Wang (Lulu Wang, diretora de “A Despedida”), Heller (Marielle Heller, de “Um Lindo Dia na Vizinhança”) e Diop (Mati Diop, diretora de “Atlantique”).

Os motivos

Se as mulheres comandaram as bilheterias e as críticas em 2019, por que elas não foram indicadas a melhores diretoras no Oscar 2020? Acredita-se que existem dois principais motivos, e não precisa ser nenhum gênio para chegar a essas conclusões.

O primeiro é que a Academia ainda é majoritariamente masculina e, claro, os homens sempre colocam seus iguais a frente. Já o segundo motivo é uma consequência natural do primeiro: para a Academia, os assuntos do universo feminino não têm tanta relevância se comparados aos outros – por mais repetidos que sejam, como é o caso da retratação das Primeira e Segunda Guerras.

Na música

O Oscar 2020 também foi marcado por duas grandes mulheres no âmbito musical da premiação. Pela primeira vez tivemos uma maestrina conduzindo uma orquestra na cerimônia. Eimear Noone e a orquestra entraram em cena para apresentar a categoria de Melhor Trilha Sonora, com um trecho de cada filme concorrente. E a melhor parte: a vencedora do prêmio foi uma mulher!

Depois de 23 anos sem uma figura feminina como vencedora, Hildur Guðnadóttir levou a estatueta para casa – sendo a quarta mulher em 92 anos de premiação a ganhar na categoria.

Em 2000, a categoria musical que antes era dividida em duas partes – Melhor Trilha Sonora de Musical ou Comédia e Melhor Trilha Sonora de Drama – foi unificada em Melhor Trilha Sonora. Desde então, nenhuma mulher havia ganhado o prêmio, e foi aí que a islandesa Guðnadóttir entrou.

Ao subir no palco para receber sua estatueta pela trilha sonora do filme “Coringa”, o discurso da compositora foi empoderador: “Para as meninas, as mulheres, as mães, as filhas, que sentem a música dentro de vocês, por favor, falem em voz alta. Nós precisamos ouvir a voz de vocês.”

Melhor documentário

Apesar do Brasil não ter levado a estatueta com o documentário de Petra Costa, “Democracia em Vertigem”, outra mulher incrível subiu ao palco: Julia Reichert. A cineasta produziu o longa “Indústria Americana” junto com seu marido e em parceria com a Netflix. Nele foram levantadas questões como a luta de classe dos trabalhadores – o que já é disruptivo por si só, principalmente para a Academia.

Como não poderia ser diferente, Reichert, que luta contra um câncer terminal, não ficou de fora da lista de discursos memoráveis do Oscar 2020. “Nosso filme é de Ohio e China, mas poderia ser de qualquer lugar onde as pessoas vestem uniformes, batem o ponto e tentam fazer com que suas famílias tenham uma vida melhor. Os trabalhadores têm cada vez mais dificuldade hoje em dia e nós acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”, declamou, com seu marido ao lado.

A última frase do discurso remete à frase célebre do Manifesto Comunista; “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Ousada.

Hair love no Oscar 2020

Em um Oscar marcado por pouquíssima representatividade negra, tivemos ainda outra surpresa boa dentre as premiações. A animação “Hair Love” garantiu a estatueta de Melhor Curta-metragem de Animação para a história sobre uma família negra na qual o pai, mesmo sem jeito, tenta arrumar os cabelos crespos da filha e fazer com que ela tenha orgulho deles. Ou seja, uma história de autoconfiança, aceitação, amor e empoderamento.

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