‘Palmas para António’: livro relata desafios e conquistas na rotina de um garoto autista

A jornalista mostra como é importante enfrentar a realidade de maneira leve e viver um dia de cada vez

Lana Bitu
Foto: Reprodução/Acervo pessoal

António ainda não tinha completado nove anos quando resolveu explicar para todos de sua escola o porquê do seu comportamento diferente e o motivo que o levava a bater palmas inesperadamente. Entre professores e alunos, o pequeno corajoso, que já estava cansado de ser tachado como bobo e esquisito, contou com serenidade e segurança como é ter a Síndrome de Asperger, um tipo de Transtorno do Espectro Autista. “Eu bato palmas para minha imaginação funcionar melhor”, falou. Foi o start para que sua mãe, a jornalista Lana Bitu, resolvesse narrar alguns episódios vividos diariamente com ela e seu filho.

Palmas para António‘, da Editora Astral Cultural, mostra por meio de uma narrativa emocionante, engraçada e leve os desafios dos pais ao criar o filho, que foi diagnosticado com autismo aos sete anos de idade. História essa, que teve início em 2017, quando Lana viu sua publicação sobre as palmas viralizar nas redes sociais. Foram mais de 16 mil curtidas e 8 mil compartilhamentos, até que fosse convidada a escrever o livro.

Com um enredo claro e de fruição natural, a obra conta com memórias cotidianas de um menino que deixou os pais em pânico porque só começou a falar quando completo 4 anos. Mas que, hoje, soma várias vitórias. “Qualquer conquista dele tem e sempre terá um valor triplicado”, escreveu em um dos trechos.

Alegrias, desafios e experiências de Lana Bitu e António

Alto Astral: O convite para escrever o livro ‘Palmas para António’ veio depois de uma publicação nas redes sociais. O que te levou a querer compartilhar a história de seu filho?

Lana Bitu: Foi um impulso de felicidade. Eu fui tomada por uma felicidade e por uma gratidão tão grandes que a minha vontade era ligar para os nossos amigos e parentes para contar e compartilhar aquele momento em que eu já tinha muita noção daquilo do que era (o autismo). O que foi um muito significativo para nós. Como eu não ia fazer isso de ligar para cada um eu pensei ‘vou fazer um post no Facebook’. O retorno que recebi me deu vontade de escrever o livro, porque eu não queria que a história saísse do meu controle. Eu queria um relato de esperança, de superação e não que se transformasse em uma trajetória de bullying, por exemplo. Não era essa a pegada.

Alto Astral: Como foi a descoberta do diagnóstico de autismo? Você já imaginava que António possuía a condição?

Lana Bitu: Assim que o António começou a manifestar alguns comportamentos que a princípio eu chamava de manias e com o tempo eu descobri que eram estereotipas (comportamento de auto-estimulação dos sentidos) como abanar as mãos e andar na ponta dos pés eu comecei a perceber. Principalmente por conta da comunicação e da falta de interesse por ela. Não era só não falar, era também não se interessar pelo o que era dito ao redor dele. Ele não assimilava e não era atingido por nada. Ele vivia em seu mundo introspectivo. Logo de cara eu comecei a pesquisar na internet e toda vez que eu digitava uma dúvida, acabava sendo direcionada a sites de autismo então uma hora eu pensei ‘cara ele tem’. Mas, eu pensava que não seria tão fácil cravar o grau e realmente não é. Mesmo assim, quando ele tinha por volta dos sete anos que a gente finalmente conseguiu o diagnóstico, não foi surpresa nenhuma, na verdade foi uma tranquilidade. A partir disso eu já podia procurar caminhos e entender do que ele precisava agora que ele realmente estava dentro do espectro. O que foi mais chocante para mim  foi quando a escola me chamou para falar sobre o seu comportamento porque eu já sabia de tudo dentro de mim, mas quando alguém de fora aponta isso torna tudo realmente real e dá aquele medo do desconhecido.

palmas para antónio

Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

Alto Astral: O livro fala bastante sobre as vitórias diárias do seu filho, tem alguma específica que te emocionou mais do que as outras?

Lana Bitu: A que eu relato no post foi muito emblemática para mim porque o António ter a lucidez de entender o que ele vive, a tranquilidade de poder falar sobre isso perante um grupo e a esperança de que aquilo facilitasse o entendimento e a convivência. Entender que aquele momento que ele estava vivendo ali com os outros naquela situação não era um estranhamento e sim um desconhecimento sobre o que ele tinha e não por maldade. Além disso, eu acho que qualquer coisa que ele faça em que ele se coloque no mundo de uma forma autônoma. Por exemplo, esse dias ele me pediu para ir ao cinema sozinho e foi levando também o irmão de seis anos de idade. Eu sou essa mãe louca que deixa! Foi um dia muito emocionante para mim.”

Alto Astral: O que você diria para outros pais que estão começando a lidar com isso agora?

Lana Bitu: “Primeiro: o choque é legítimo e vários sentimentos que as pessoas não se permitem nomear porque não são tão ‘nobres’, como raiva, autopiedade… também. Segundo: é preciso de um tempo para essa reprogramação de expectativa. Mas se eu pudesse transformar isso em uma pílula para que as pessoas tomassem e entendessem é que todo filho demanda essa reprogramação de expectativa. Só que quando o filho está dentro de alguma síndrome, isso se torna mais claro mais cedo e de forma mais intensa e condensada. Em terceiro, eu também diria para que os pais não deixem ninguém tentar dizer até onde seu filho vai chegar porque ninguém sabe do que uma pessoa é capaz, o cérebro pode conseguir coisas incríveis e isso não é só para aqueles que tem autismo. Quarto: depois de um tempo, tente entender qual é a dinâmica de seu filho e da sua família para saber como ajudá-lo nesse processo porque antes de ser um autista ele é uma criatura com personalidade, qualidades e defeitos e que está inserida em um meio social.

Alto Astral: Tem algo que você aprendeu com António por meio de sua perspectiva de mundo?

Lana Bitu: Não tem algo que aprendi com o António, tem ‘algos’ que eu aprendi e aprendo. Ele reforçou uma coisa que já era um pouco nata em mim que é a autenticidade e a transparência. Uma das questões do TEA é que a pessoa nasce sem malícia social, sem entender ironia e sarcasmo, por exemplo. Se eu falo para o António algo do tipo ‘você está com dor de cotovelo’ em uma situação em que ele esteja sentindo inveja, ele vai virar para mim e falar ‘mas eu não machuquei meu braço, por que você está falando isso?’. Então uma das coisas que ele me ensinou foi a clareza na comunicação. Além disso, eu sou uma pessoa ligada nos 22o e ele me obrigou a mudar de marcha, diminuir a intensidade. No começo foi violentíssimo para mim, mas hoje eu vejo o quanto isso me trouxe ganhos. Ele me ensinou a digerir os dias e viver ainda mais um dia de cada vez. Ainda preciso aprender a ter essa capacidade de enfrentar a si mesmo, coisa que vejo tanto nele.

Alto Astral: Você pretende escrever mais sobre essa trajetória?

Lana Bitu: “Eu quero muito! Mas eu acho que é importante ter uma razão para escrever. O que eu quero é poder compartilhar cada vez mais e sempre que eu puder o otimismo e os ganhos. Quero também poder compartilhá-las desse meio jeito que é mais irônico e debochado, meio que rindo dos momentos difíceis como fiz em ‘Palmas para António, porque eu acho que fica mais fácil de vivencia-los. O que não quer dizer que eu não aprenda com eles, é aquela história ‘a dor é inevitável, o sofrimento é opcional'”.

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