Falsas memórias: saiba como a mente pode nos enganar por meio de “fatos” que não aconteceram

Nem sempre conseguimos distinguir a verdade da ficção. E, diferentemente dos mentirosos, as pessoas que possuem falsas memórias realmente acreditam nelas

Mulher de blusa vermelha com uma expressão facial demonstrando confusão
(Foto: Shutterstock Images)

Comentar sobre um evento da maneira que não ocorreu ou jurar de pés juntos que ouviu alguém dizer tal coisa – que na verdade não disse – podem ser consideradas mentiras descaradas. Porém, há quem realmente acredite na história que está dizendo devido às falsas memórias, também conhecidas por serem uma lacuna no cérebro de algumas pessoas causada por lesões, ou ainda de forma sugestionada.

Foi ele ou não foi?

Lembranças que não correspondem à realidade dos fatos, mas que a pessoa as identifica como sendo verdadeiras, são consideradas falsas memórias. Podem ser criadas a partir de um processo semelhante ao sonho. “Algumas lesões da artéria comunicante anterior cerebral afetam o cérebro em áreas próximas ao tronco; assim, as áreas mais primitivas do órgão criam uma inserção mnêmica”, explica a psiquiatra Julieta Guevara.

Apesar de não se tratar de uma patologia, o tema ganhou destaque nos Estados Unidos, na década de 1990, com as pesquisas da psicóloga norte-americana especialista em memória humana Elizabeth Loftus, em razão de algumas condenações embasadas no relato de vítimas que apontaram como autor a pessoa errada.

Diferente de alguém mentiroso – ciente de dizer algo que não é verdade – a principal característica de quem sofre desse distúrbio é acreditar naquilo que diz. De fato, Loftus mostrou como crianças e adultos podem evocar memórias sugeridas dentro de um contexto relacionado, em um processo chamado de sugestão de falsa informação. “Nas falsas memórias, os indivíduos são condicionados a inserir conteúdo falso numa memória real”, revela Guevara.

Em quem ocorre?

Segundo o psiquiatra Sander Fridman, as falsas memórias podem ocorrer em pessoas sem doenças cerebrais identificáveis e variam muito em termos de gravidade, repercussões e prejuízos sociais ou pessoais. O indivíduo não possui a intenção em criar tais recordações, mas o cérebro reorganiza as informações originalmente guardadas de uma maneira muito peculiar conforme absorve novos dados. “Ao tentar compor momentos mais completos, principalmente do passado, a pessoa duvida da própria capacidade e dá espaço para acreditar no que o outro está afirmando, causando essa ‘reciclagem’ de informação armazenada”, explica a psiquiatra Maria Cristina De Stefano.

Crianças e adultos podem criar memórias falsas, por exemplo, quando pressionados a falar sobre algo que não têm nenhum conhecimento ou não lembram. Para o neurologista André Gustavo Lima, também há a possibilidade de ser um sintoma ligado a algumas síndromes, como amnésia, demência e afasia (perturbação da formulação e compreensão da linguagem), estando relacionado às alterações de memória da consciência.

Na mira da ficção

Alguns estudos sugerem que pessoas com lesões no córtex órbito-frontal, situado nos lobos frontais, podem ter falsas memórias. “Essa região é responsável por fazer o cérebro monitorar nossos sentimentos, memória e imaginação. Quando a informação recebida é incompleta, há um esforço extra do órgão para fazer com que tudo se encaixe – e o resultado disso pode ser a ficção”, afirma Lima. Indivíduos submetidos a situações críticas ou com transtornos de estresse pós-traumático também estão predispostos a sofrer dessa disfunção, que requer acompanhamento especializado.

Para virar o jogo

Como podem influenciar comportamentos e escolhas a longo prazo, é imprescindível buscar ajuda assim que o distúrbio for diagnosticado. “Quando o indivíduo acredita naquela memória, ele pode ter bloqueio nos relacionamentos interpessoais, criar estigmas e pré-conceitos por conta das distorções de informações, entre outras coisas”, alega De Stefano.

Não existe cura definitiva para as falsas memórias, mas é possível reverter o quadro. “Se não houver nenhum dano cerebral significativo, a pessoa pode aprender a compensar os lapsos. Treinar a memória para checar os fatos, em alguns casos, ajuda o cérebro a ser mais eficiente”, completa a especialista.

Texto: Juliana Borges | Consultorias: André Gustavo Lima, neurologista especialista em doença cerebrovascular pelo Hospital Santa Maria de Lisboa, em Portugal; Julieta Guevara, psiquiatra e diretora da Neurohealth – Centro de Métodos Biológicos em Psiquiatra no Rio de Janeiro (RJ); Maria Cristina De Stefano, psiquiatra; Sander Fridman, psiquiatra no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro (RJ).

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