ESTILO DE VIDA

Ruminar pensamentos: um hábito cheio de riscos e prejuízos

Repetir um problema em nossa cabeça em busca de solução imediata pode parecer a melhor escolha. Mas, na verdade, você pode estar se deixando doente!

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(Foto: iStock/Getty Images)

por Redação Alto Astral
Publicado em 18/08/2017 às 16:36
Atualizado às 16:36

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Você já parou para checar quanto tempo por dia passa sofrendo com ideias e pensamentos que já eram para ter deixado a sua cabeça? Como se preocupar com questões que já foram resolvidas ou continuar chateado com algo que já era para ter sido perdoado? A psicologia chama isso de ruminar pensamentos, comparado com o ato da ruminação feito por animais como a vaca, como explica a monja Coen.

“Ruminar é isso, em vez de eu ter um pensamento e deixar ele passar, eu fico trazendo de volta. É que nem uma comida que já está meio mastigada. E isso não é benéfico”. Não apenas maléfica, a ruminação de pensamentos pode causar problemas de longo prazo e até mesmo complicar a recuperação de outras questões de saúde mental, como conta o psiquiatra Caio Magno: “Se pensar em uma situação causar mau humor, tristeza e desmotivação é um sinal de alerta. Além disso, é um fator de risco importante para desenvolver quadros de depressão, ansiedade e estresse. E também pode dificultar a melhora desses problemas”.

Ruminar é, então, o ato de repetir tanto uma ideia ou problema em nossa cabeça a ponto de nos exaurir da energia para realmente resolver a questão. Mas por que isso acontece?

O problema de ruminar

A mente tem que lidar com centenas de problemas todos os dias, achando soluções para o que nos aflige. Quando começamos a dedicar mais tempo e energia a um único pensamento, ele pode consumir um esforço que originalmente deveria ser distribuído entre várias questões. “Você resolve um problema, outro surge. Nossa vida é incessante. Se você ficar pensando no anterior, você não tem disponibilidade para pensar neste”, explica a monja.

Isso pode ser muito negativo para você. Dedicar tanto tempo a um único pensamento pode se tornar doloroso pela repetição. Mais do que isso, pode tornar difícil pensar em algo diferente do problema que tanto ocupa a sua mente. A questão, entretanto, não é facilmente solucionada por simplesmente não pensar em problemas. “Há pessoas que evitam pensar nos problemas, o que é disfuncional. Já os que ruminam pensam demais e de modo destrutivo, piorando o estado depressivo ou ansioso, o que acaba levando à manutenção do problema”, explica Magno.

Portanto, ao ruminar um pensamento tendo a ilusão de que enfrentar repetidamente a mesma questão pode a resolver, você, na verdade, acaba a desconfigurando. Passa a entender as dificuldades de superar o problema como maiores do que realmente são e pode até perder as esperanças de escapar dele. E nem com isso escapamos da ruminação, uma vez que agora passamos a enxergar aquele obstáculo como definidor em nossa vida.

“A mente é luminosa. Se você fica querendo prendê-la num determinado tipo de raciocínio, você está prejudicando todo o fundamento da sua saúde mental”, conta a monja Coen. “É um vício, como os vícios que as pessoas desenvolvem”. Sendo assim, é preciso combater a ruminação para impedi-la de causar danos à sua saúde mental, o que pode acabar se tornando obsessão. Mas como fazê-lo?

Soluções

Uma das estratégias possíveis contra a ruminação é bem conhecida dos monges budistas. “Ficar obsessivo, ficar sempre na mesma questão é o começo de uma doença mental. É preciso desanuviar. E a meditação pode ajudar”, afirma a monja. A meditação, afinal, consiste em focar a mente através de um conjunto de técnicas desenvolvidas a partir de treinos. Ela se faz presente em diversas culturas e religiões, como o budismo, o taoísmo, o sufismo e até mesmo o cristianismo. No zazen, método utilizado pelos monges zen, utiliza-se de um controle da respiração com a pessoa sentada.

Outro método muito comum é a utilização de mantras, que são frases ou palavras repetidas para que a mente possa se concentrar nelas e não vagueie para outros assuntos. A meditação pode ser uma solução para problemas de ruminação de pensamento, entretanto, é preciso tomar cuidado caso a questão já tenha se aprofundado.

A monja fala sobre as limitações da meditação: “Se a situação for grave, o ideal é procurar um médico. A meditação, sozinha, não faz milagre”. A solução, então, é procurar um psiquiatra que possa auxiliar a resolver o problema com tratamento por meio de remédios e aconselhamento. Outra possível solução é a prática de análise. Muitos analistas, com técnicas próprias de cada tipo de tratamento analítico, são capazes de auxiliar na recuperação da pessoa. Eles também conseguem diagnosticar a profundidade do problema e indicar um psiquiatra especializado, caso seja necessário.

Evitando

O melhor jeito de ficar livre da ruminação, porém, é nem mesmo começar a encarar os problemas de forma repetitiva. Para isso, às vezes, é preciso enfrentar as coisas com mais leveza. “Às vezes, você tem que deixar a mente descansar um pouco. Olhar para o céu, olhar para o mar”, sugere Coen. Quando ficamos muito preocupados com nossos problemas, podemos esquecer que estamos cercados de coisas boas. Tentar encarar com mais leveza o dia a dia e resolver nossos problemas apenas como forem possíveis é um caminho para uma vida menos estressada.

O psiquiatra Caio conta que existem pessoas com mais propensão a ruminar pensamentos, mas que é fácil identificar quais são elas: “Elas vivenciam de forma mais intensa os sentimentos de aflição, angústia, tristeza, ansiedade e têm baixa tolerância à frustração. Essas pessoas costumam apresentar com mais prevalência os pensamentos ruminantes disfuncionais”. Existem, entretanto, formas de combater essa propensão à ruminação. Os psiquiatras indicam, por exemplo, se afastar temporariamente de algo que esteja causando esse tipo de sentimento.

Digamos que você comece um projeto pessoal e não esteja conseguindo solucionar um problema que considera urgente. Os psiquiatras recomendam um afastamento da questão, mesmo que por apenas um dia. Eventualmente, com a cabeça mais limpa e refrescada, retorne para o projeto. Isso costuma deixar mais fácil a solução do problema. É importante ocupar a cabeça com outras coisas durante esse processo, de forma a não permitir ao pensamento ruminante voltar durante o distanciamento.

“Essa ruminação impede a mente de se oxigenar, de se renovar e encontrar o que realmente se pode fazer”, diz a monja. “Ela impede a solução real de emergir entre as outras, já que torna tudo maior. O certo é ir cuidar de outras questões. Deixe a sua mente ser livre, deixe os pensamento passarem, dê o tempo certo a cada um deles”

Mas, por vezes, a solução pode questionar a própria necessidade de se ruminar. “É preciso aprender a contestar os pensamentos ruminantes, avaliar se são válidos e pensar em saídas alternativas”, explana Caio. “Só o fato de perceber que ruminar reforça o problema emocional pode gerar na pessoa uma perspectiva diferente sobre esse hábito tão ruim”.

A solução, portanto, é sempre buscar o autoconhecimento, seja através da meditação, da análise ou do questionamento com relação ao ato de ruminar. Conversar com outras pessoas sobre os problemas e desabafar são sempre possibilidades de solução, também. Tudo para evitar que a repetição de um pensamento negativo nos mude até não nos reconhecermos mais.

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