Envelhecer: saiba como aproveitar o que o futuro reserva

Limitação física, doenças, solidão: apesar das dificuldades, é importante lembrar dos benefícios dessa fase da vida e deixar de lado o medo de envelhecer!

Mulher na terceira idade sorrindo
(Foto: Shutterstock)

Talvez seja difícil aceitar que o corpo já não funciona como antigamente, que a saúde está mais frágil, ou que você precisa da ajuda de outras pessoas para carregar as compras do supermercado, mas tenha sempre em mente que a velhice chega para todos aqueles que estão vivos. Apesar dos empecilhos que surgem com a idade, não é preciso ter medo de envelhecer, pois a passagem da vida adulta para essa nova fase – apesar de ser um processo de difícil aceitação para muitos – não ocorre de um dia para outro, ou como num passe de mágica.

O que é ser “velho”?

Quando pensamos em velhice, é comum que o estereótipo de um idoso debilitado, com problemas de memória e necessitando de constante atenção de seus filhos venha à mente. Entretanto, essa imagem que criamos não corresponde totalmente à realidade atual, apenas nos impacta mais emocionalmente, nos fazendo esquecer os idosos ativos, que dirigem (e fazem questão de utilizar as vagas exclusivas nos estacionamentos), limpam a própria casa, cozinham, vão ao médico, desenvolvem seus hobbies e viajam.

De acordo com o geriatra Thiago Monaco, o envelhecimento é um processo que traz diversas modificações no corpo, como a perda da mobilidade, do equilíbrio, da força e da agilidade, o que interfere na autonomia da vida diária. “Muitas dessas alterações modificam a capacidade de locomoção do idoso”, destaca. Mesmo assim, é possível amenizar os efeitos: “a atividade física na terceira idade pode ser usada de forma preventiva nas doenças degenerativas que o processo do envelhecimento traz, como os desgastes das articulações, a falta de força, equilíbrio, redução da massa óssea e muscular”, explica Monaco. Dessa maneira, é possível agir de forma paliativa e devolver a autonomia aos idosos. Mas o que isso significa de verdade?

Autonomia vs Independência

Uma das grandes preocupações em relação à velhice é ser dependente de outras pessoas, contudo, existem diferenças entre independência e autonomia. “A independência é ter dinheiro, poder andar, comer, ir e vir sem necessitar de ajuda e a autonomia é a capacidade de fazer escolhas como o que comer, o que vestir, como usar o dinheiro e para onde ir sem necessitar de ajuda”, diferencia a psicóloga Ana Caroline Saldanha. Segundo a especialista, muitas pessoas confundem isso, pois um idoso pode ser dependente, porém autônomo, o que é o mais importante.

Medo de envelhecer

Esse pensamento pode justificar os 90% dos brasileiros que têm medo de envelhecer, pelo menos é o que diz um levantamento realizado pelo Instituto Qualibest em 2015, que contou com a participação de 989 pessoas. Segundo a pesquisa, saúde, limitações físicas, problemas financeiros e solidão são as principais preocupações da população em relação à velhice. Para Saldanha, “esse medo ocorre, pois, com o aumento da faixa etária populacional, a incidência de algumas doenças que afetam tanto a independência quanto a autonomia vem aumentando, mas não necessariamente essas doenças vão comprometê-las”. Segundo a especialista, durante a vida, a pessoa cresce, amadurece e conquista a sua independência. Assim, a ameaça de perder algo construído e que demorou a ser conquistado é assustadora.

“Qual a minha importância aqui?”

Quando adultos, alcançamos o controle total de nossas vidas, entretanto, quando chegamos à terceira idade, percebemos que algumas funções precisam ser delegadas, o que pode aumentar o nosso receio da dependência e de perder a “utilidade” para aqueles que estão ao nosso redor. “Por exemplo, uma senhora que cozinha começa a perder a capacidade de memorizar as etapas para preparar as refeições. Quando a família contrata uma cozinheira, ou outra pessoa da família resolve tomar essa função, o medo dela não é só de se tornar dependente, mas de perder a função que tem na família. Ela esquece muitas vezes que a família a quer não pelo que ela faz, mas por ser quem ela é”, exemplifica a psicóloga.

Existe ainda uma espécie de cobrança social em relação às vestimentas e aos comportamentos usuais dessa faixa etária. Há uma expectativa para que idosos sejam mais conservadores, passem grande parte de seus dias dentro de casa, geralmente assistindo à televisão. Contudo, não é preciso seguir esse padrão, afinal, a vida adulta permitiu o desenvolvimento da autonomia. Por isso, ao pensar na senescência, tire o foco do prejuízo e pense nos ganhos que surgirão com a idade: “amadurecimento, experiência, capacidade de perceber detalhes que os mais jovens não conseguem, e inclusive a liberdade que vem com o envelhecer por não ‘dever mais nada a ninguém’”, elenca Saldanha.

Aproveite sua companhia

Já cantava Renato Russo que “nós não temos mais o tempo que passou, mas temos muito tempo” – ou melhor, todo o tempo do mundo. Talvez esse seja um dos principais conselhos em relação à velhice: aproveite o presente, o tempo que você, com certeza, tem. Não pule as etapas da vida, pois isso só trará angústia, no futuro, em relação ao que você não viveu ou aproveitou. Um exemplo claro é quanto ao convívio com familiares e amigos.

Enquanto alguns idosos gozam dessa experiência, outros precisam lidar com a solidão. Se este último é um de seus receios em relação ao futuro, lembre-se que ficar sozinho não é ruim, mas ficar solitário sim. “Um idoso pode morar com a família, com amigos, em uma instituição ou sozinho, o que importa é como ele leva a sua vida. Se ele(a) sai, interage com outras pessoas, conversa e sempre consegue fazer novos amigos, isso nada tem a ver com ser extrovertido, ou ser agradável o tempo todo”, explica a psicóloga.

O conselho de Saldanha é envelhecer procurando aproveitar sua própria companhia. Para a especialista, não é preciso estar cercado de pessoas: “alguns bons amigos já podem fazer a diferença e familiares mais próximos podem oferecer atenção”. Assim, durante sua vida, não tenha receio de amar outras pessoas e nem de ser amado de volta, desenvolva a sua gratidão e respeite quem está ao seu lado. Em suma, é importante criar relações saudáveis.

Caminho a ser seguido

Agora, se o seu medo diz respeito a possíveis doenças no futuro, o ideal é a prevenção. “A prática de atividades físicas, uma alimentação equilibrada, meditação e a prática de hobbies, como marcenaria, culinária, pintura, leitura, mecânica ou costura são ótimas formas de prevenir e aliviar os sintomas da depressão e da ansiedade”, sugere Saldanha quanto aos principais problemas psicológicos que atingem os mais velhos. Além disso, consultas médicas regulares também ajudam a evitar o avanço de muitas patologias. Quer um conselho sobre envelhecer? Não deixe para depois o que você pode prevenir hoje – seja uma doença grave ou suas angústias pessoais.

Texto: Érica Aguiar

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