Uma cobra pode mesmo ser encantada com a música?

Quando um encantador toca, a cobra é hipnotizada pela música? Por que ela se ergue? Na verdade, a resposta não tem nada a ver com o som

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Foto: John Downer/Getty Images

por Redação Alto Astral
Publicado em 27/09/2016 às 18:46
Atualizado às 18:35

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Não. O encanto não tem nada a ver com a música, mas com o encantador que balança um pungi (um instrumento de sopro esculpido em uma cabaça) na frente da cobra. As cobras não têm orelhas externas e conseguem escutar pouco mais que ruídos de baixa frequência. Mas, quando uma cobra vê algo ameaçador, se ergue numa pose defensiva.

Foto: John Downer/Getty Images

Foto: John Downer/Getty Images

“O movimento das cobras é completamente controlado pela pessoa que toca a flauta”, diz Robert Drewes, presidente do departamento de herpetologia (o estudo de anfíbios e répteis) na Academia de Ciências da Califórnia, em São Francisco (EUA). “Ele balança, a cobra balança”, diz.

Encantador de rãs

Drewes estuda como os animais respondem a seus próprios chamados; a especialidade dele são as rãs. Rãs têm ouvidos muito bons, o que faz sentido, considerando que o som transportado pelo ar é vital para sua procriação: o coaxar de um macho chama uma fêmea. Cada chamado de cada espécie de rã é diferente. Drewes consegue andar com os olhos vendados em um trecho da floresta Arabuko Sokoke, no Quênia, e identificar 15 diferentes espécies só de ouvir seus chamados.

Rãs fêmeas possuem orelhas internas que estão sintonizadas apenas ao chamado de sua espécie. Ele gosta de um tom rico e profundo, e quando toca saxofone, prefere seu contralto e tenor a seu soprano. No entanto, quando viaja para a África, ele traz um soprano. “Eu odeio essa coisa, mas cabe na minha bolsa” diz.

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Imagem: Christian Fischer / Wikimedia Commons

O que as rãs acham de sua forma de tocar? “Não posso responder isto. O cara que realmente sabe destas coisas é Bernie Krause.” Krause é músico e “ecologista sonoro” que já gravou com Stevie Wonder, The Doors e George Harrison (Krause trabalhou no álbum “Electronic Sound”, de Harrison, que dá créditos ao gato de Harrison pela performance em um dos lados).

Alguns músicos tocaram música para baleias assassinas e golfinhos. Acontece que, inicialmente, as criaturas pareciam estar curiosas e queriam saber o que era aquilo e de onde vinha”. Em 1985, fez parte de uma equipe que influenciou uma baleia jubarte perdida a sair do delta do rio Sacramento, com gravações de jubartes se alimentando.

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Imagem: Thomas Lersch / Wikimedia Commons

Krause diz que, embora os animais pareçam responder ao que chamamos de música, como podemos saber o que eles pensam? “Pássaros sacodem as cabeças ao ouvir as batidas. Chimpanzés já tocaram teclado com Peter Gabriel. Mas estamos atribuindo nossas características aos animais. Mostre-me animais que aparentemente estão curtindo uma música, que não estejam em cativeiro, que não estejam procurando por algo para aliviar o tédio”, desafia.

Segundo Krause, aprendemos nossa música a partir da natureza. Em alguns pequenos núcleos do globo, grupos de humanos ainda cantam com a natureza em vez de cantar para ela. Os Kaluli, na Papua Nova Guiné, “misturam suas vozes com os sons da floresta, que é como nós primeiramente aprendemos a polifonia” – cantar com mais de uma voz. O encantamento de cobras também deve ter começado dessa maneira: cantar e dançar com a cobra. Mas isso foi há milhares de anos atrás, antes de sabermos que esses répteis não conseguiam ouvir uma flauta.

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Texto: Ryan Bradley – Edição: Ricardo Piccinato