Dia Nacional do Surdo: desafios da mulher surda no mercado de trabalho

Neste 26 de setembro, saiba mais sobre os obstáculos enfrentados pelas mulheres surdas!

Dia Nacional do Surdo: os desafios da mulher surda no mercado de trabalho
Raiane Barros, Rejane Gontijo e Laís Drumond (Fotos: Arquivo pessoal)

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Estamos vivendo uma das épocas mais turbulentas da história da humanidade. A pandemia do coronavírus parou o mundo! Se está sendo difícil para todos nós lidar com esse momento, imagine para as pessoas com deficiência, que já enfrentam suas dificuldades diárias num mundo sem pandemia, principalmente no setor profissional. Você conhece os obstáculos da mulher surda para se inserir no mercado de trabalho?

Hoje (26) é comemorado o Dia Nacional do Surdo, significativo e cheio de representatividade na batalha por inclusão social dessa comunidade, junto ao Setembro Azul. A data foi escolhida e oficializada por lei devido à fundação da primeira escola de surdos do Brasil, em 1857, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), que ainda se dedica ao ensino bilíngue. O mês inteiro marca sua luta pela acessibilidade comunicativa, destacando a importância da conscientização do uso e da difusão da Língua Brasileira de Sinais (Libras) no nosso país.

As barreiras na comunicação fazem parte do dia a dia da pessoa com deficiência auditiva. Profissionalmente, os desafios começam na faculdade, fazendo com que poucos realmente saiam de lá com um diploma. E, mesmo quando conseguem, é ainda mais complicado arrumar um emprego na área de formação. Em tempos de isolamento social, então, nem se fala.

Para homenagear sua luta nessa data tão especial, conversamos com três mulheres surdas sobre o tema, que compartilharam suas experiências e vivências. Conheça essas profissionais incríveis e talentosas – e um pouco mais de seus respectivos trabalhos!

A mulher surda no mercado de trabalho

Raiane Gontijo Barros, fisioterapeuta

Foto: Apae-BH/CER IV Contagem/Ana Paula Drumond Guerra

Raiane tem 35 anos e é formada em Fisioterapia pela PUC Minas, com pós-graduação em Fisioterapia em Geriatria pela CMMG. “Minha dificuldade em entrar no mercado de trabalho foi a falta de visibilidade das minhas habilidades por algumas empresas que enviei currículo. Mesmo com a conquista da acessibilidade, que alguns empresários desconhecem, poucos surdos no nosso país têm formação na área da saúde”, conta.

Moradora de Belo Horizonte, ela se viu obrigada a atender em home office durante a pandemia, de forma totalmente online: “No meu trabalho, a acessibilidade me proporciona superar a barreira da comunicação e fazer meus atendimentos com a competência de qualquer outro profissional. Esses 4 meses foram desafiadores devido à falta de equipamentos próprios da fisioterapia, mas gravei vídeos e criei estratégias com materiais de uso doméstico”.

Na hora dos atendimentos, a fisioterapeuta utilizou o aplicativo da SignumWeb, que disponibiliza intérpretes de Libras virtualmente. “A maioria dos pacientes aceitou bem as atividades propostas nas videochamadas. Como eu sou surda oralizada, consigo fazer leitura labial do que eles falam, o que facilita um pouco”, diz.

Atualmente, Raiane já está trabalhando de forma presencial no Centro Especializado em Reabilitação Antônio de Oliveira (CER IV), em Contagem – MG, seguindo todos os protocolos de segurança. Ela ressalta, ainda, a importância do uso de máscaras com visor transparente pelos ouvintes para viabilizar a comunicação.

Rejane Oliveira Gontijo, designer de moda

Foto: Arquivo pessoal

Sua irmã, Rejane, tem 33 anos e é graduada no Tecnólogo de Design de Moda pelo Centro Universitário Una. Para ela, os desafios se iniciaram na própria faculdade, já que é usuária de Libras e entende pouco o português: “Minha fluência é na Língua Brasileira de Sinais. Os cursos são sempre na Língua Portuguesa e a maioria não oferece intérpretes, dificultando a minha participação”.

A mineira ama a profissão que escolheu, mas os obstáculos para se inserir no universo tão competitivo da moda são notáveis. “O mais complicado é a barreira do preconceito, a falta de atitude de acreditarem no potencial de uma profissional surda. Sou uma pessoa igual às outras e tenho o direito de sonhar, vencer e ter oportunidades”, desabafa.

Rejane se demitiu do trabalho há cerca de um ano para se dedicar a mais cursos de especialização na sua área. “Estou estudando e pesquisando em casa. Na pandemia, está mais difícil ainda conseguir um emprego. Para conversar com os amigos, pelo menos, a tecnologia facilita”, conclui.

Laís Monteiro Drumond, atriz

Foto: Arquivo pessoal

Laís tem 37 anos e trabalha como coordenadora social da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis/MG). Professora de Libras por formação, também é atriz e fotógrafa. Sua grande paixão é a atuação: “Infelizmente, não há espaço para mim nos programas de TV, mesmo sendo meu maior sonho”.

Segundo ela, a falha mais grave do mercado de trabalho é não ter referências sobre a deficiência auditiva. “Eu fiz várias entrevistas na minha vida e não obtive sucesso, pois as vagas superiores ficam sempre para os ouvintes. Mesmo eu fazendo comunicação orofacial (leitura labial com expressão) e escrevendo bem em português e inglês, eles ainda são incapazes de acreditar no meu potencial. Acham que temos um defeito, mas o verdadeiro defeito é não reconhecer as pessoas com deficiência”, denuncia.

Muito além dos obstáculos na profissão, a artista teve que encarar as aulas virtuais da filha de 9 anos – CODA (Children of Deaf Adults, filhos ouvintes de pais surdos, em tradução livre) – durante a quarentena. Ela estuda em uma escola regular e pública. “Minha filha assistiu e desistiu, pois eu não conseguia entender bem para ajudar. Não posso obrigá-la a interpretar para mim, pois é apenas uma criança. A qualidade dos vídeos era péssima”, explica.

Por fim, Laís conta que tem andado com um caderno de anotações, já que tirar a máscara não é uma opção, mesmo comprometendo sua comunicação. No entanto, as pessoas não vêm mostrando paciência para escrever, sendo em Libras a única forma de se comunicar com segurança. Isso só reforça a importância de conscientizar a sociedade sobre os desafios da comunidade surda e incentivar a disponibilização de intérpretes cada dia mais! Vamos juntas nessa luta?

Curiosidade: surdos não são mudos

Você sabia que o termo “surdo-mudo” é equivocado? Como aprendemos a falar a partir do que escutamos, alguns surdos não desenvolvem a fala, mas seu aparelho fonador continua intacto e é capaz de emitir sons normalmente.

Confira abaixo o vídeo da ouvinte @robertahabinoski e seu marido surdo @bruno_habinoski, que viralizou nas redes sociais, explicando melhor a dinâmica!

Texto, reportagem e edição: Renata Rocha | Colaboração: Cleusangela Barros e Felipe Barros | Janela de Libras: SignumWeb | Interpretação: Sulivan Wainer

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