Como a maconha afeta o cérebro adolescente?

Não se sabe muito sobre o efeito do consumo de maconha por parte dos jovens, mas uma coisa é certa: ela exerce influência no desenvolvimento do cérebro

Por Augusto Biason - 18/07/2016
Primeiro medicamento à base de maconha Folha Cannabis Sativa

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São mais de 12 mil anos de história. De lá pra cá, ela foi vista por diversas perspectivas: remédio para reumatismo, elemento para a prática de rituais religiosos e matéria-prima para velas de caravelas. Pedro Álvares Cabral, inclusive, chegou ao Brasil graças a ela! Estamos falando da erva mais polêmica da história da humanidade: a maconha.

Apesar da longa trajetória, algumas perguntas a respeito dela continuam sem respostas concretas. Uma delas, se não a mais pertinente, é: como a maconha afeta o desenvolvimento do cérebro? Ou, indo mais direto ao ponto, qual o efeito cognitivo do uso pelos adolescentes?

Maconha

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Cérebro influenciável

A própria ciência ainda bate cabeça quando se fala de cérebro adolescente. Há duas décadas, acreditava-se que o órgão atingia o ápice da maturidade no final da infância, por volta dos 12 anos. Mais recentemente, os cientistas descobriram que o cérebro adolescente permanece em desenvolvimento até parte da vida adulta. Vale ressaltar que ele tem uma habilidade incrível de se remodelar constantemente: a neuroplasticidade. “É a capacidade que o órgão tem de se reorganizar ao longo da vida. Essa reorganização ocorre através da criação de novos neurônios e de novas conexões entre eles, e é acionada por nossas experiências”, explica a psicóloga e neurocientista Renata Alves Paes.

A adolescência é a fase em que estamos expostos a constantes experiências. Portanto, devido ao grande número de estímulos, a plasticidade é mais intensa nesse período. Dessa forma, o cérebro acaba se tornando altamente influenciável – seja por bons ou maus hábitos, vale ressaltar. Um bom exemplo dessa habilidade dos jovens é a capacidade maior que eles possuem em memorizar letras de músicas em relação a adultos.

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O que a ciência diz

Uma recente pesquisa da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, descreveu os efeitos a longo prazo do consumo da maconha. Cerca de 1.000 pessoas foram acompanhadas por duas décadas, dos 18 aos 38 anos de idade. Aqueles que começaram a fumar a erva durante a adolescência (cerca de 5% do total) apresentaram uma diminuição no quociente de inteligência (QI) em comparação ao rendimento dos que não eram usuários nessa fase. Em média, a diferença foi de oito pontos em uma escala de 100.

Isso sugere que os reflexos negativos do consumo intenso e prolongado da maconha sobre a cognição, em habilidades como memória e atenção, são mais intensos em adolescentes que em adultos. “Ao que parece, esses efeitos estão relacionados com o desenvolvimento do sistema endocanabinoide (naturalmente presente em várias áreas do cérebro e envolvido em funções, como emoções, percepção, consciência) durante a adolescência, e o potencial efeito negativo da maconha neste desenvolvimento”, expõe o biólogo e doutor em farmacologia Rafael Guimarães dos Santos.

Para a psicanalista Cristiane M. Maluf Martin, o uso de maconha nessa etapa da vida “pode causar mudanças no cérebro que atrapalham o aprendizado, já que ainda não terminou de se desenvolver”. Além disso, sugere a especialista, os jovens usuários podem apresentam um déficit em tomadas de decisões, percepção consciente e atenção. “Os adolescentes acabam apresentando menos conexões entre os neurônios em áreas específicas do cérebro, o que prejudica a memória e o controle inibitório, além de afetar hábitos e rotinas”, completa.

Fumando maconha

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Não tão claro

Rafael, entretanto, afirma que não está comprovado se é a cannabis que causa estes efeitos ou se os adolescentes já possuíam estas características antes de iniciar o consumo. Segundo o especialista, isso poderia inclusive explicar o maior uso de maconha por estes jovens. “Na maioria desses estudos, os consumidores de maconha possuem alterações cerebrais ou cognitivas somente quando comparados com não-consumidores, mas em geral os dois grupos estão dentro dos critérios de normalidade da população”, destaca.

Desse modo, garante o biólogo, não é possível afirmar que a erva é a causa destes resultados, pois ainda não se sabe ao certo o real impacto do seu consumo, especialmente o prolongado, na estrutura e funções cerebrais e no dia a dia dos usuários.

A maconha entre os jovens

Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado pelo Instituto Nacional de Políticas de Álcool e Outras Drogas (INPAD), em 2012, 600 mil adolescentes já haviam consumido maconha ao menos uma vez na vida. Entre todos os usuários, mais de 60% experimentaram a droga pela primeira vez antes de completar 18 anos.

Portanto, é importante aprofundar o debate, descobrir os verdadeiros reflexos dessa prática e, a partir disso, desenvolver políticas públicas de proteção aos jovens. “Considerando que são pessoas em desenvolvimento cerebral, cognitivo e social, as campanhas de prevenção e educação devem ser voltadas mais para este grupo do que para adultos”, aponta o biólogo e doutor em farmacologia Rafael Guimarães dos Santos.

TEXTO: Augusto Biason / colaborador CONSULTORIAS: Cristiane M. Maluf Martin, psicanalista; Rafael Guimarães dos Santos, biólogo, mestre em psicologia e doutor em farmacologia; Renata Alves Paes, psicóloga cognitivo-comportamental e neurocientista.