Mateus Solano sobre beijo gay: “se acontecer, será sem preconceito e alarde”

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Ele é bom pai, bom marido, queridinho da turma e do tipo que abre a porta do carro. Esse é Mateus Solano: inteligente, talentoso e educado e ainda colhe os bons frutos de Félix, o vilão da vez que vem roubando a cena em Amor à Vida. “A questão dele é com o pai que, apesar de não ser contra homossexual, não gostaria que o filho fosse. Todos os movimentos do Félix são da forma para agradar ou esfregar na cara do pai que ele é muito bom”, afirma.

"Sem nenhuma forma de preconceito, sem nenhum alarde", diz Solano sobre possível beijo gay

Foto: Sergio Baia / Divulgação

Guia Astral – O Félix é um vilão no qual não estamos acostumados e para você também deve ser diferente. Como tem sido esse processo de criação?

Mateus Solano – Certamente ele é diferente dos bonzinhos, mas em cada personagem que faço, tento buscar uma diferença total e absoluta. Porque acho que ninguém é igual, por mais que a pessoa seja boa ou ruim ou qualquer outra coisa assim. Desse ponto de vista, acho que ele é tão diferente quanto o Mundinho (Gabriela) era do Miguel ou do Jorge (Viver a Vida) ou quanto o Arnaldo (Do Tamanho do Mundo) que estou interpretando no teatro. Não vejo essa dificuldade. Você não é a primeira a me fazer esse tipo de pergunta. A opção sexual dele é bem perceptível pela forma como ele age. Ele tem esse casamento de fachada, convencional como a gente pode chamar… Como homem, mulher, filho e tal. Ele tem essa vontade de poder e de ser diretor do hospital. Isso tudo ele acha que é camuflado, de ser homossexual. Ele é um cara sem escrúpulos. Ambicioso, tenta se tornar o acionista majoritário do hospital que pertence ao pai e vai passar por cima de tudo e de todos para conseguir. A irmã dele é o grande problema porque é o xodó do pai e provavelmente o hospital vai para ela.

 

GA – Alguns países estão regulamentando o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Você acredita que com isso o preconceito irá diminuir?

MS – Já me fizeram uma pergunta parecida, do tipo se acho politicamente correto isso acontecer neste momento… Na verdade, o que está acontecendo é uma grande discussão sobre essas hipocrisias que sempre existiram. A questão da aceitação ou não do homossexual aparece agora porque temos uma grande liberdade na internet, de dizer o que a gente acha, fóruns são montados, tem a questão da globalização… As pessoas têm suas opiniões que podem ser lidas. Não acho que este é um momento diferente, a única diferença é que agora se fala mais sobre essas coisas. O preconceito sempre existiu, mas ele está muito mais à tona. Agora se ele vai diminuir isso eu não sei… Deixo pra história dizer.

 

GA – Seu personagem é um gay enrustido. Na verdade ele não assume por medo da repressão? Ou ele sente a necessidade de mostrar virilidade para conquistar o poder?

MS – A questão dele é com o pai, que apesar de não ser contra homossexual, não gostaria que o filho fosse. É como muitos e muitos pais que a gente vê por ai. O pai fez a parte dele, no sentindo de tentar arquitetar a vida do filho, dele caminhar para o convencional. Todos os movimentos do Félix são da forma para agradar ou esfregar na cara do pai que ele é muito bom. Ele é muito bom no que faz como marido, como tudo que o pai queria que ele fosse. Ele queria, na verdade, que o pai acordasse e percebesse que ele é melhor que a irmã. Mas ele é movido por insatisfação ou sentimentos de injustiça, por inveja, sentimentos mesquinhos…

 

GA – E como é para você lidar com a sua maldade? Como você controla?

MS – Sou um cara, digamos, do bem, um cara de paz. Mas sei da existência da maldade. Eu lido com ela através dos meus personagens. Acho a profissão de ator, uma grande catarse neste sentido. A gente se põe no papel de outras pessoas, e acaba exercitando outros lados nossos, que são reprimidos pela sociedade. Grande parte do carisma de um vilão vem daí. A gente diz bom dia, boa noite, com licença o dia inteiro. Chega em casa e liga a televisão, e vê aquele cara dizendo aquelas barbaridades que às vezes a gente gostaria de dizer, mas colocamos um cadeado na boca e acabamos não dizendo. Muita coisa fica engasgada na garganta da gente, somos impedidos de falar pra não perder o emprego, o amigo, perder isso ou aquilo. Neste sentido o carisma do vilão vem deste lugar…

 

GA – Essa não é a primeira vez que você trabalha ao lado da atriz Bárbara Paz. É mais fácil dividir a cena com quem já conhece? A desenvoltura é melhor?

MS – Essa é a terceira vez que trabalhamos juntos. Com certeza é mais fácil, e essa é a grande vantagem que um grupo de teatro leva em cima de um elenco de teatro. Elenco é aquele povo que se junta pra fazer a peça e depois se separa. Um grupo vai trabalhando, se conhecendo, desenvolvendo linguagem, e o trabalho vai enriquecendo. O fato de eu estar num terceiro trabalho com a Bárbara, poxa, conheço o jeito dela e a gente discute com muito menos censura sobre qualidades ou defeitos do outro nas cenas.

 

GA – Um dos fatos que as pessoas comentam é que a emissora dificilmente mostrará o beijo entre duas pessoas do mesmo sexo. Esse fato pode acontecer nesta novela? Aliás, você toparia fazer uma cena dessas?

MS – Estão até colocando bastante no You Tube agora, uma cena de um beijo gay que eu fiz num filme, chamado Novela das Oito. É uma cena muito bonita. Agora na televisão, essa novela trata a questão do homossexualismo com muita normalidade, de uma forma que ainda não foi vista, eu acho… Se o beijo gay acontecer, certamente será da mesma forma que o beijo heterossexual, sem nenhuma forma de preconceito, sem nenhum alarde.

 

GA – O ator sempre quer ser odiado quando interpreta um vilão. O que você espera que o público ache desse novo trabalho?

MS – Eu não vou às ruas, fico o dia inteiro no Projac e depois volto pra casa… Mas fico sabendo através dos meus colegas, falando muito do Twitter e tal… Depois de muito tempo fui dar uma olhada no Twitter e fiquei muito feliz de ver a repercussão positiva do personagem. As pessoas falam rindo que estão odiando. É um ódio dúbio, é um amor e ódio na verdade, porque tem muito humor, e eles gostam. A tendência do personagem é cada vez soltando mais pinta. Muitas vezes eu penso que talvez esteja dando pinta demais, mas já relaxei quanto a isso. Acho que tem uma teatralidade que permite o Félix dizer algumas coisas.

 

GA – Como tem sido pra você acompanhar de perto o crescimento da sua filha Flora, que já está com dois aninhos?

MS – Dois aninhos e sete meses… Tem sido ótimo! Tudo tranquilo.

 

GA – Ela ainda é muito pequena, mas você já se perguntou como vai fazer para passar conceitos de ética e moral para ela?

MS – Não, eu vou pensar no dia a dia.

 

GA – Mesmo com pouca idade, os pais colocam os filhos em atividades como balé, inglês, espanhol. Você vê um problema ou acha positivo para o crescimento da criança?

MS – Vejo como algo positivo, porque a infância é uma época em que temos que nos colocar num monte de coisas, até pra gente saber o que vamos escolher lá na adolescência. É uma das fases mais estimulantes da vida e a criança precisa ser estimulada. Eu já passei por cursos de judô, natação, vôlei, basquete, violino, musicalização. Fui muito estimulado. O fato de o meu pai ser diplomata possibilitou conhecer vários lugares pelo mundo. Tudo isso abriu a minha cabeça. E tudo que eu puder dar de abertura pra minha filha, e não de fechamento, vou querer dar. Muitos dos problemas que a gente vê de intolerância hoje em dia, é por ter pessoas com cabeça fechada. Opiniões conclusivas definitivas sobre as coisas. Eu sou mais da pergunta: ‘será que pode ser?’… Gosto de uma frase do Sócrates: ‘Só sei que nada sei’.

 

GA – Existe uma discussão em torno de bater ou não na criança. O que você pensa a respeito deste assunto? Como você normalmente age em situações de limites?

MS – Cada um deve saber como educar o seu filho. O mais importante é isso que eu falei, de mostrar pra criança que nada é definitivo, tudo é criativo. Tudo pertence ao presente, nada pertence ao passado e nem ao futuro. É no presente que a gente utiliza o que aprendeu no passado pra construir um futuro. Mas o único momento que existe é o presente.

 

GA – Com a chegada de um filho, as pessoas afirmam que se tornaram melhores, no sentido pessoal. Com você esse sentimento existe? Suas atitudes mudaram?

MS – Eu gosto de falar, inclusive usar este exemplo, pra falar da minha peça. O Arnaldo acorda um belo dia e não consegue andar. É um mal súbito que logo passa, mas que abre um buraco dentro dele. E a partir daí começa a ver as coisas como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez. E a partir deste novo olhar, ele começa a questionar as escolhas dele, o desejo e os valores que ele dá para as coisas. Eu comparo isso com o momento em que voltei da maternidade com a Flora. Não era o mesmo Rio de Janeiro… Não tem como descrever. Acho que todas aquelas frases clichê começaram a fazer todo o sentido.

 

GA – Você ajuda a cuidar da Flora, troca fraldas, coloca pra dormir?

MS – Claro! Eu sou o pai, Flora é 50% eu!

 

GA – E quando você está de folga, o que mais costa de fazer?

MS – Andar de bicicleta e curtir os amigos em casa…

 

GA – Por enquanto você também está com o espetáculo ‘Do Tamanho do Mundo’ e o texto foi escrito pela sua mulher, Paula Braun. Como tem sido esse processo?

MS – Tem sido muito bom. Era uma questão para mim, porque a gente já acorda, toma café, dorme junto e agora trabalhar, não sabia como ia ser. Tem sido muito bom saber que isso pode unir a gente ainda mais e não separar.

 

Entrevista: Ester Jacopetti / Colaboradora

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