O que é sonambulismo

O que é sonambulismo

Foto: Thinkstock/Getty Images

Jorginho, personagem  de Cauã Reymond em Avenida Brasil, interpretado pelo ator  passou por um sufoco durante um episódio da novela: quase foi atropelado sem saber o que estava fazendo. Jorginho sofre de sonambulismo, uma alteração do sono, também chamada de Parassonia. Para entender mais sobre esse transtorno, o neurologista Daniel Campinho Schachter explica os fatores que causam o sonambulismo e como tratar desse problema:

O sonambulismo é mais comum em crianças, mas pode persistir até a idade adulta. Durante o sono, o cérebro do indivíduo continua funcionando ativamente e pode levá-lo a realizar ações inesperadas. “Ao contrário do que se imagina, durante o sono, o cérebro humano permanece bastante ativo. Existe um ciclo de atividade durante o sono com fases bem características. Durante uma noite normal de sono, o cérebro passa por estas fases de forma cíclica. Podemos dividir as fases do sono em 1, 2, 3 e 4 e o sono REM. Durante as fases 1 a 4 o indivíduo aprofunda o sono progressivamente e fica cada vez mais difícil de ser despertado, mas durante a fase REM o sono do indivíduo volta a ficar mais leve. Acredita-se que o sonambulismo ocorra na fase 4 do sono, possivelmente pela ativação de circuitos cerebrais motores, enquanto os circuitos ligados à consciência e ao despertar estão mais inibidos”, explica o neurologista.

Comportamento do sonâmbulo

Os sonâmbulos não estão conscientes de suas ações e no dia seguinte não se lembram de quase nada. “O indivíduo poderá realizar ações simples como andar sem rumo, abrir e fechar portas ou janelas, falar palavras ou frases e até mesmo desviar de objetos conhecidos, transitando por aposentos com os quais está familiarizado. Todavia, durante o episódio, o paciente não interage ou responde se falarem com ele. Se comandado a retornar ao quarto ou à cama poderá até obedecer, mas terá que ser guiado. O episódio costuma durar alguns poucos minutos e no dia seguinte o paciente não se lembra de nada ou quase nada”, revela o médico.

É perigoso?

O indivíduo pode chegar a se ferir ou a correr riscos mais graves, dependendo de onde ele se encontra. “Dificilmente o paciente sonâmbulo realiza tarefas muito complexas ou que necessitem de planejamento. Por exemplo: pegar a chave em uma gaveta para destrancar a porta de casa, chamar um ônibus e pagar a passagem, usar um telefone ou computador. Em casos raros, o paciente sonâmbulo pode ser agressivo.”, aponta o especialista. Ele ainda completa: “Os episódios de sonambulismo em si causam riscos, sendo que o paciente poderá se ferir durante as ações que executa. É válido lembrar: o paciente não está consciente do que faz durante o episódio”.

Sonambulismo na idade adulta

“O sonambulismo se inicia na infância. O sonambulismo clássico ocorre com maior frequência nas crianças de 8 a 12 anos de idade. A confusão ao despertar é mais comum em crianças de 2 a 6 anos. O sonambulismo em crianças não é indicativo de transtornos psiquiátricos ou neurológicos significativos e tende a melhorar com o crescimento.”, revela o Dr. Schachter. Na idade adulta, pode se tornar um distúrbio mais sério e o recomendado é procurar a ajuda de um especialista. “Quando o sonambulismo persiste até a idade adulta ou ressurge no adulto após anos ou décadas de remissão, é maior a probabilidade de doença psiquiátrica ou neurológica. Em especial, os casos em que o sonambulismo surge em um adulto ou idoso sem histórico prévio de sonambulismo na infância, é vital que se realize uma investigação detalhada, pois é grande a possibilidade de que seja na realidade outro tipo de transtorno do sono.”, conta o especialista.

Tipos de tratamento

O sonambulismo não tem cura, mas na maioria dos casos, o transtorno desaparece com o tempo: “A principal arma contra o sonambulismo em crianças é a informação. É necessário que os pais compreendam o problema e percebam que o sonambulismo não é uma doença psiquiátrica ou neurológica. Cuidados simples podem ser tomados: trancar portas, janelas, retirar objetos potencialmente perigosos do caminho do paciente ou remover estes objetos de locais facilmente acessíveis. Em casas com escadas ou varandas, é indicado até mesmo mudar o quarto do indivíduo de local ou andar, se a escada ou varanda fica na ‘rota’ do sonâmbulo”. Os medicamentos podem ser utilizados, mas não com frequência. “Os medicamentos ficam reservados para os casos em que o risco de ferimento durante o episódio é muito grave ou quando há uma perturbação da rotina do paciente ou de sua família pelo sonambulismo. É importante frisar que os medicamentos só deverão ser indicados por especialistas”, ressalta o neurologista.

Fatores externos

Má alimentação e estresse podem piorar a rotina do indivíduo sonâmbulo. “O uso de determinados medicamentos, especialmente os calmantes e antidepressivos, além de álcool e drogas ilícitas podem piorar ou desencadear episódios em indivíduos suscetíveis, por modificar a estrutura do sono. A suspensão abrupta destas medicações ou substâncias também pode ter este efeito”, pontua Schachter.

Consultoria: Daniel Campinho Schachter é membro da Academia Brasileira de Neurologia e neurologista do São Vicente de Paulo (RJ).

 

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