Entrevista com o Padre Reginaldo Manzotti

O Dia de Finados é uma data de grande importância para a Igreja Católica. Para entender mais sobre esse dia, o Padre Reginaldo Manzotti contou sobre a origem de Finados e porque devemos celebrar a partida dos entes queridos. Veja:

Como surgiu o dia de Finados?

Havia uma comemoração antiga, de origem celta e pagã, de celebrar o Halloween (Dia das Bruxas).  O cristianismo colocou que nós deveríamos celebrar a ressurreição, diferente do costume pagão. Então, no dia 1 de novembro, celebra-se o fim último de todos nós, que somos chamados à santidade e a viver com Deus. No dia 2, celebra-se àqueles que já partiram, numa atitude de rezar por eles para que Deus os conceda descanso eterno. O Dia de Finados surge como uma memória daqueles que partiram, e, ao mesmo tempo, numa atitude de oração, pedindo que nosso Jesus cristo, na sua infinitude, dê a eles o descanso eterno. Caso alguém tenha morrido e estava em graça plena com Deus, pode ter os seus pecados redimidos e as suas falhas perdoadas. É essa a importância do Dia de Finados, é um dia de oração. Eu vejo muitas pessoas que acham que é somente levar flores e fazer memória: mas não é só memória, é uma memória orante. Como diria Santo Ambrósio: “As flores murcham”. No dia de finados vemos os cemitérios cheios de flores, mas quando o sol se põe, na maioria das vezes elas já estão murchas. Flores murcham, velas queimam, prata se corrompe. Santo Ambrósio vai nos lembrar que para os mortos, o que realmente importa é a oração.

Qual a importância da missa de 7º dia? Por que se celebra?

A Igreja, não necessariamente, impôs o sétimo dia. A tradição da Igreja era o terceiro, depois passou para o sétimo. Segundo uma tradição antiga, no sétimo dia é que o estado de decomposição se derramava ao céu. Todos nós temos a bile, um órgão do corpo humano. E no estado de decomposição, no sétimo dia, a bile se rompe. Independente se a missa é celebrada no 3º, no 4º, no 5º, no 6º ou no 7º dia, o importante é a missa para os familiares se reunirem e rezar em favor da pessoa. Porque cada vez que nós, vivos, olhamos para a morte, valorizamos a vida. Então, ao mesmo tempo em que a missa, sem dúvida, tem um grande valor para aqueles que partiram (o próprio sacrifício de Jesus repara as faltas daqueles que morreram), também tem valor para a família que se reúne na missa, porque faz refletir que tudo é passageiro. Todos os dias precisamos estar com a nossa mala pronta para fazer essa grande viagem que às vezes nos causa temor. Também é importante que família se volte para ela mesma: pode ser a oportunidade de um perdão a ser dado, uma reconciliação a ser feita, um momento da própria união da família em torno daquela perda.  A missa de sétimo dia tem uma dimensão espiritual, levando a pessoa a trabalhar a perda. A morte é sempre uma perda. Claro que desemprego é uma perda, uma separação é uma perda, mas a morte gera um estado de perda que nós chamamos de luto. E a missa de sétimo dia leva a pessoa a enfrentar seu luto, muito importante na hora em que se perde alguém.

 

Padre Reginaldo Manzotti

Foto: Marcos Hermes

E como se enfrenta o luto?

Primeiro: com a certeza de que não existe um ponto final, aqueles que faleceram continuam do outro lado. Segundo: é uma entrega! Eu vejo muitas pessoas que, diante da morte de alguém, não conseguem enfrentar a perda, entram numa depressão profunda. Esse “não elaborar”, “não vivenciar”, “não rezar” essa perda faz a pessoa se prender naqueles que partiram, principalmente quando se trata de pais que enterram seus filhos, ou um casal que viveu muito tempo junto. Esse processo de entrega do luto, entregar alguém falecido a Deus é muito importante e um processo de fé. Terceiro: acreditar que a morte não é o fim, mas apenas uma passagem, uma outra instância de uma vida mais plena. Tudo isso está implícito no sétimo dia.

Para onde vão as almas?

Quando a pessoa morre, acreditamos que ela passa por um juízo particular. É a hora em que tudo o que fazemos passa como um filme em nossa mente. Tudo aquilo que ficou mal resolvido vem à tona: isso é o juízo particular. E nesse juízo particular, a Igreja católica acredita que a alma pode, se morrer em estado de beatitude (em plena comunhão com Deus), ir para junto de Deus no paraíso, que não é um lugar físico. Muitas vezes temos a imagem de um paraíso em cima das nuvens, porém ele é um estado de profundo amor com Deus. Em oposição, algumas almas que morrem em estado de pecado mortal e que até o fim negaram a existência de Deus e não confiaram na Sua misericórdia, podem ir para o que chamamos de inferno. O inferno não é um lugar embaixo da terra cheio de fogo: é um lugar onde nossa alma não pode contemplar Deus. O que é mais atemorizador do que alguém que ama viver longe da pessoa amada? Isso é o inferno. Existe também um terceiro estágio, que acredito que cabe a todos nós – o purgatório. A Igreja acredita no purgatório: as pessoas que morreram, mas têm algo a ser reparado, vão para esse estágio em que esperam pelo juízo final. Existe o juízo particular na hora em que a pessoa morre. A pessoa pode ir para o céu, para o inferno ou pode estar no purgatório.

O que é o juízo final?

A volta de Jesus Cristo, quando ele virá para ajudar os vivos e os mortos. Isso vai acontecer? Vai. Quando? Não sei. De que forma? Também não sei, ninguém sabe. No entanto, existe uma promessa que ele voltará. E quando ele voltar, dará o fim último, o juízo sobre todos os vivos e os mortos. É isso em que nós acreditamos. As almas não ficam vagando, não ficam nessa dimensão. Então não é preciso ter medo de almas, não é preciso ter medo de falecidos. As casas assombradas – a própria psicologia explica – não é fruto dos mortos, a assombração é feita pelos vivos. É uma projeção de uma mente perturbada e desequilibrada. Não são as almas que vão assombrar as casas, ninguém precisa ter medo dos mortos, eles não fazem mal.

Para fazer uma oração especial neste feriado, acompanhe o Padre Reginaldo no vídeo abaixo:

“Senhor Deus, neste momento de oração, queremos pedir por aqueles que já partiram. Senhor Jesus, que disseste: ‘Todo aquele que me vê e Nele crê, tem a vida eterna e eu ressuscitarei no último dia.’ Senhor Jesus, é nesta fé e nesta promessa que nos sentimos consolados em nossas perdas, perdas que tivemos ao longo da vida. É nesta fé na ressurreição que cremos e confiamos nas pessoas que tanto amamos e que já partiram. É por acreditar, Senhor, que se convosco morreremos e convosco ressuscitaremos, que não temos medo da morte. Pela fé da ressurreição que celebramos o Dia de Finados, lembrando de nossos falecidos na alegre esperança da ressurreição e de um reencontro contigo. Suplicamos Salvador do mundo, pelas almas de nossos falecidos, que só vós conheceis a fé. Pedimos, amado Jesus, concedei alívio às almas sofredoras que ainda padecem no purgatório. Dai-lhes o descanso eterno e que a luz perpétua os ilumine. Senhor ressuscitado, eu creio e espero. Contigo quero viver, contigo quero morrer, para contigo ressuscitar. A certeza da Tua ressurreição me conforta nesse Dia de Finados. Amém.”

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